“Vicejam os frutos na figueira/Desabrocha a videira os seus perfumes/Levanta-te, amada minha,/ Minha bela, e vem./(...) Favos de mel manam de teus lábios/ Mel e leite estão debaixo de tua língua/ E o cheiro de tuas vestes/ É igual ao Líbano”
Estes versos fazem parte do Cântico dos Cânticos, um livro curto do Antigo Testamento, posterior ao Eclesiastes e anterior ao Livro da Sabedoria. Tem apenas oito capítulos, mas apesar de sua brevidade apresenta uma estrutura complexa, com multiplicidade de vozes. Uma tradição de três milênios atribui ao Rei Salomão a autoria do poema que está traduzido em todas as línguas do Ocidente e do Oriente Médio. Como parte da Bíblia, livro mais conhecido no mundo, chega a bilhões que o leem com renovada emoção.
Figura histórica e personagem bíblica, Salomão , filho do Rei David com a rainha Beteseba, teria se tornado o terceiro rei de Israel e governado por quarenta anos, de 1009 a 969 a.C. Notabilizou-se por suas riquezas, grande sabedoria, senso de justiça. O amor à palavra e o dom para traduzir o poético podem ter contribuído para que seu longo reinado fosse maarcado pela paz.
No Cântico dos Cânticos os sujeitos alternam sua fala de modo inesperado, sem indicação prévia ao leitor, que ,contudo, não perde o entendimento. Há três discuros principais no relato lírico. O do noivo ( um jovem pastor), o da noiva (Sulaminta), a o do rei (que se apaixona pela moça mas não é correpondido). Atuam também as vozes dos meio-irmãos da jovem e as filhas de Jerusalém que servem como coro para ecoar os sentimentos da moça, um pouco à moda da dramaturgia grega. Falando de amor, sua gênese e seu amadurecimento, os versos, por serem intensamente sensuais, tiveram sua validade como texto bíblico questionada ao longo do tempo.
Mas a grande e permanente originalidade desta obra reside em que, mesmo quando descreve o sentimento amoroso e o desejo do homem, é pelos olhos da mulher que ambos são evocados. O discurso é feminista avant la lettre, ao desvelar pela ótica livre e sem constrangimentos de um olhar híbrido, que é masculino e ao mesmo tempo feminino, um amor com alta voltagem erótica, capaz de vencer todos os obstáculos. Vigoroso e harmonioso, o sentimento integra sexualidade e espiritualidade, e se torna aos olhos dos amantes, “mais forte que a morte”.
Artistas de todos os tempos e ao longo de séculos têm bebido nesta fonte onde o contato físico se instala de forma sutil, criando um clima onde o prazer do casal pela companhia um do outro é peça central de um arranjo que induz a muitos outros prazeres, sensoriais e luxuriantes, e onde também o leitor é seduzido por tecidos, fragrâncias, bebidas e comidas evocadas em imagens hiperbólicas. Neste “ambiente de langor perfeitamente protegido”, como analisa o ensaísta alemão Jack Muller, os versos soam frescos e sinestésicos. “Sou apenas um açafrão na planície costeira”, diz Sulamita”. “Como lírio entre as plantas espinhosas assim é a minha amada”, responde o pastor.
Este amor físico e ao mesmo tempo transcendente da Sulamita e de seu pastor, inspirou incontáveis prosadores, poetas, ensaístas, músicos, escultores, pintores, artistas plásticos, psicanalistas, cineastas. Em nossa língua portuguesa, escritores como Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Osman Lins, Abdias do Nascimento, Moacyr Scliar, Affonso Romano de Sant’Anna , entre outros, fazendo uso de intertextualidade replicaram o poema em versos, na ficção, na dramaturgia e em ensaios.
Relendo Cântico dos Cânticos, penso na alusão aos figos no verso inicial. No Talmud, o livro religioso dos judeus, comparam-se os estágios de desenvolvimento feminino à evolução do fruto: verde, quando se refere a uma menina; em etapa de amadurecimento, quando diz respeito a uma adolescente; maduro em comparação à mulher adulta. Nos ritos de fecundação em antigas civilizações indo-mediterrâneas as frequentes associações enriquecem a compreensão dos versos do poema . E até o idioma colabora para a pertinência, riqueza e intensidade de tais imagens, pois no hebraico as palavras diferem ao nomear cada fase da fruta. Assim, apenas pag é o termo indicado para identificar o figo que está passando de verde para maduro.
Os figos que vicejam na figueira já amadureceram e pedem para ser colhidos. Esta parece ser a mensagem que subjaz a todo o relato lírico, cujas metáforas intensamente conectadas à sexualidade impressionam ainda hoje:
“Meu amado desliza a mão pela abertura/E meu ventre na hora estremece/Levanto-me para abrir ao amado;/Minhas mãos destilam a mirra e meus dedos/Cheios de mirra escolhida/ Seguram a maçaneta da fechadura”
Conjugação estética de amor e erotismo, o Cântico dos Cânticos é poesia atemporal. Permanece altaneira diante da voracidade dos séculos, das transformações civilizatórias, da construção de novas maneiras de sobreviver. Porque nos mantém em contato com o que nos alimenta, nos vivifica e se estabelece como potencialmente humano: o sentimento amoroso que une homem e mulher.
Sônia Machiavelli, professora, jornalista, escritora
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