“Eu não quero vingança, não tenho raiva. Eu só quero uma universidade melhor”. A frase, que demonstra um anseio coletivo por justiça e paz, é parte de um depoimento dado à CPI que investiga trotes em universidades paulistas, que só existe porque contou com a coragem de jovens denunciantes. Nos depoimentos à CPI, foram levantados inúmeros casos de racismo, homofobia, humilhações, desvios e agressões vergonhosas.
A riqueza do conteúdo da CPI tem o mérito de refutar fortes argumentos a favor dos trotes. O primeiro é o controverso rito de passagem. Usado em sociedades tradicionais para integrar o indivíduo ao grupo, o rito deixa marcas e requer silêncio do ingressante como se confiassem a ele um segredo que o torna um igual, ao passo que o trote universitário estabelece, além de marcas e silêncio, a desigualdade entre “bixo” e veterano. De acordo com os relatos, o trote não termina no início das aulas, mas perdura até a vida profissional do estudante. O segundo argumento é a tradição, premissa menos que primária, pois não faz jus a capacidade intelectual de jovens inseridos em um ambiente que pressupõe reflexão. Para aqueles que não se dobram ocorre o suicídio social, que serve para discriminar o rebelde nas relações interpessoais no ambiente acadêmico e, muitas vezes, fora dele. O calouro pode não ser autorizado a participar de atividades promovidas por veteranos e, por vezes, recebe ameaças de deméritos profissionais futuros.
Para a indignação geral dos ouvintes, a prática do deboche foi assimilada por muitas instituições de ensino superior, o que explica a impunidade e as relações absurdas de poder denunciadas. A percepção é de que há liberdade porque, simplesmente, instituições e alunos não compreendem que estão cometendo crimes. Naturaliza-se a violência como uma brincadeira inocente entre jovens.
A dimensão cultural do trote é a mais importante. Proibir não é consenso nem entre estudantes, que não podem ser responsabilizados pelas atitudes de grupos violentos. Há anos o trote cidadão é incentivado por entidades estudantis. Devemos almejar a extinção da cultura do trote. Será preciso um esforço constante de fiscalização e cumprimento da Lei, além do diálogo franco dos grupos ligados à educação e aos direitos humanos. Aos pais e alunos resta a atenção redobrada, pois os traumas alteram profundamente a vida das vítimas.
Sarah Munhoz
Enfermeira, deputada estadual (PCdoB) e vice-presidente da CPI das Universidades
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