Sequência de mortes divide o Jd. Aeroporto


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Vista de parte das casas do Complexo Aeroporto, na região Sul de Franca. Bairro vive série de assassinatos desde dezembro
Vista de parte das casas do Complexo Aeroporto, na região Sul de Franca. Bairro vive série de assassinatos desde dezembro
Os cinco homicídios ocorridos em pouco mais de dois meses na região do complexo Aeroporto, em Franca, não apenas trouxe uma sensação de insegurança aos moradores, como vem dividindo opiniões sobre a vida no bairro.Enquanto que para uns nada mudou na rotina diária de trabalho, escola ou lazer, para outros a sequência de mortes traz preocupação e afeta a relação que o restante da cidade tem com quem mora no local. 
 
A reportagem do Comércio conversou com dezenas de pessoas durante dois dias, principalmente nos Aeroportos II, III e IV. O conjunto, localizado na região Sul da cidade, engloba ainda os jardins Aviação e Santa Bárbara, além do prolongamento deste último. Em todas as abordagens ficou perceptível que as pessoas têm receio de falar abertamente com a imprensa, não fornecem seus nomes por inteiro e, enquanto dão atenção à reportagem, aparentam impaciência com quem está ao redor. 
 
Na última quarta-feira (4), por volta das 18h30, bastaram poucos minutos parados nas imediações da Igreja Assembleia de Deus, no Aeroporto III, para que um grupo, formado por homens de no máximo 20 anos, se aproximasse do carro. Não houve qualquer tipo de abordagem, mas o ar de intimidação era evidente.
 
O mesmo aconteceu na quinta-feira, mais cedo, perto das 15 horas. Ao tentar fazer a travessia para o alto do bairro, perto do local conhecido como Ferro Velho do Romildo, no Aeroporto IV, a presença do carro da reportagem no local parecia incomodar. Numas das ruas, um rapaz, também dentro da faixa dos 20 anos, deu voltas com sua bicicleta em torno do carro do Comércio. 
 
O clima encontrado em parte do complexo, não apenas nestas vezes, mas visto com regularidade, parece só ocorrer com “forasteiros” ou, ao menos, não parece incomodar boa parte dos entrevistados. Eles afirmam que não têm nenhum receio de continuar morando por ali. Mudar, na verdade, não estava nos planos de nenhuma das pessoas com quem a reportagem falou.
 
Para o proprietário de um bar na Avenida Cesar Martins Pirajá, a sequência de mortes traz reflexos negativos para o bairro e ajuda a aumentar ainda mais o estigma que bairro carrega de “violento”. Há dois anos no local, ele disse fechar seu bar nunca muito depois das 21 horas. A explicação para o horário vem de forma simples: “Se eu continuar aberto, quem vai ficar aqui? Trabalhador que não é, porque no outro dia tem que acordar cedo. Então, não quero complicação”, disse. “O problema maior é que você sabe quem morre, mas não sabe quem mata”.
 
No mesmo bar uma dupla de amigos disputava uma partida de sinuca. Um deles, tatuador e há mais de 20 anos residente no Aeroporto III, disse que sente no próprio negócio quando um homicídio ocorre por lá. “Alguns clientes de outras regiões da cidade, por exemplo, evitam marcar horários depois das 19 horas, por medo de vir aqui à noite. Com isso, perco clientes, fico sem trabalhar”, disse. Seu amigo, que mantém um pequeno comércio com o pai, disse que a região está perigosa e que procura,por questões de segurança, alterar seus horários de sair e chegar em casa. 
 
Poucos metros distantes do bar, um mototaxista falou do impacto que os homicídios trazem para os imóveis na região do Aeroporto e Santa Bárbara. “Cada vez que o jornal noticia que teve morte aqui, o preço das casas e dos terrenos despenca”, disse ele. “Todo mundo acaba pagando o preço da violência, mas pode saber que quem morreu não foi de graça e estava metido com tráfico de drogas”.
 
Outro rapaz, identificado por Willian, funcionário da coleta de lixo em Franca, disse que sofre com a fama e a violência do bairro. “A gente precisa fechar os olhos senão não vive”, disse. “Moro aqui há 20 anos e quando essas últimas pessoas morreram, eu estava na minha cama dormindo, porque tinha que pular cedo de manhã. Agora, quem faz seu caminho é você. Você sabe com quem anda”, disse ele, mas fez questão de completar “o bairro é bom”. Segundo ele, o Aeroporto é dotado de todas as facilidades que os moradores precisam em serviços, “um dos mais movimentados aos domingos”. 
 
Esses aspectos mais positivos do bairro foram elencados por muitos dos entrevistados. Um casal encontrado perto da Paróquia de Santana disse estranhar a fama que os moradores de outros lugares de Franca insistem em atribuir ao bairro. Os dois moram no Aeroporto há 10 anos e acham que o preconceito com a região não condiz com a vida que levam. “Ficamos um ano inteiro sem tranca ou fechadura em casa. Nesse período fomos até viajar e nunca aconteceu nada”, disse ele, que é caseiro. Para ele, o problema existe como em qualquer outro lugar sendo que, em sua opinião, não se ouve falar que as mortes envolveram trabalhadores. “Você vê que quem morre é gente que está envolvida com tráfico, fazendo coisa errada. Quem trabalha não tem tempo para ficar na rua fazendo coisa errada”, disse. O casal, inclusive, avaliou como satisfatória a presença da PM.
 
A adolescente Bruna, 16, reclama da falta de policiamento no bairro, mas se apressa em dizer que, mesmo assim, não deixaria o bairro para morar em qualquer outro lugar de Franca, mesmo após a ocorrência das cinco mortes. “Para ser bem sincera, já até me acostumei. Aqui eu ando em qualquer lugar, chego a hora que eu quero. Não vejo esse problema de insegurança, não. A gente sabe que é acerto de conta, dívida entre eles”. 

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