Ela é espetacular, no mais profundo sentido etimológico da palavra, ou seja, feita para o olhar. Lembra entardeceres incendiados, língua de fogo, lenha na lareira acesa, a brasa que se mostra viva e palpitante na fogueira. Lembra flores rubras, frutas do bosque, rubis em turbantes orientais, certas telas do Geraldo Louzada. Lembra deserto quando o sol está a pino, como numa cena do filme Lawrence da Arábia. Lembra os souks do Marrocos e a praça Djmaa em Marakesh. Lembra as cochonilhas, insetos de onde se extraem corantes para tecidos e alimentos, e também as rosas vermelhas em praça de Alcalà de Henares, onde morou Cervantes. Lembra nossos magníficos flamboaiãs chamejantes nas primaveras alegando a vista dos que sabem ver. Lembra os gerânios dos balcões da Andaluzia e as papoulas dos campos turcos. Lembra o capuz de Chapeuzinho e a ópera Carmem. A páprica é pincipalmente uma cor.
A cozinha húngara a tornou famosa ao usá-la como condimento básico de um prato que integra cardápios do leste europeu e de muitos restaurantes especializados ao redor do mundo - o goulash, um cozido de carnes, batatas, cenouras, cebolas e pequenos pedaços de toucinho. Sem páprica não há goulash. Ela também entra como ingrediente de mistura aromática e picante chamada baharat, que colore e perfuma dúzias de pratos nas cozinhas turca, árabe e berbere; esta, do norte da África. Mas o segundo maior consumidor encontra-se na Europa, é a Espanha. Os espanhóis utilizam mais páprica que açafrão para temperar aquele suculento, maravilhoso, memorável arroz com frutos do mar chamado paella. No México ela também é muito empregada e ruboriza até as mangas que ambulantes oferecem descascadas e espetadas em palito nas praias de Acapulco a turistas encantados com o mar e a possibilidade de voar.
O condimento resulta de uma específica variedade de pimentões ( pimentón, para os mexicamos) que são assados e depois moídos, ocasião em que sua cor vermelha atinge o clímax. Pode ser picante, como comparece na pimenta síria. Ou doce, como a utilizada neste prato que você vê na foto de Dirceu Garcia. Eu reproduzi a receita de revista com que fui presenteada por pessoa querida, que a trouxe de Londres. Obrigada, amiga!
Poderia ser um simples gratinado de batatas, que geralmente acompanha uma carne assada. Mas a páprica torna-o diferente, quer pelo sabor, quer pela cor. Pois ficam realmente coradas estas rodelas que se forem colocadas sobrepostas ficam ainda mais atrativas. A páprica encontrada nos nossos supermercados é de boa qualidade; temos as melhores batatas do mundo; o prato pode ser feito em uma hora, levando-se em conta o tempo de cozimento das ditas cujas. Tem tudo para ser experimentado. É fácil de fazer e talvez e talvez só tenha um segredinho. As batatas devem ser cozidas com casca, depois de bem lavadas e escovadas.
Para que fiquem com uma apresentação nota dez, escolha as menores, sempre as mais saborosas, e todas do mesmo tamanho, por uma questão estética. Design é importante à mesa; e decisivo para os olhos, pois afinal é por eles que começamos a comer. Não deixe que as batatas cheguem ao ponto de se desfazerem; elas precisam ficar macias, mas firmes. Espere amornar e descasque. Corte em rodelas de 1 cm. Reseve- as e passe às cebolas. Corte-as em rodelas também. Coloque a manteiga numa frigideira grande, deixe aquecer e refogue em fogo baixo, mexendo até que murchem e fiquem transparentes. Não deixe que fritem além da conta. Reserve-as. Prepare o molho batendo bem os ovos e misturando a eles o creme de leite, até que tudo fique bem homogeneizado. Salgue e apimente a gosto.
Você têm então até aqui três elementos. As batatas cozidas, as cebolas refogadas, o molho preparado. Agora é montar. Unte uma forma refratária com manteiga. Divida as batatas em três porções e as cebolas em duas. Coloque no fundo a primeira camada de batatas cobrindo toda a superfície e salpique 1/3 da páprica. Em seguida disponha com engenho metade das cebolas. Volte com outra camada de batatas polvilhadas com outro terço da páprica e cubra com o restante da cebola refogada. Por fim, distribua o que restou das batatas, dispondo-as em forma de escamas, as metades se sobrepondo. Despeje o molho, que fica bem fluido, por toda a extensão. Espalhe o queijo parmesão, ralado de preferência na hora. Finalize com o que restou da páprica e leve ao forno quente, para aquecer e gratinar.
INGREDIENTES
9 batatas pequenas
3 cebolas pequenas
3 colheres (sopa) rasas de manteiga
3 ovos
6 colheres (sopa) de creme de leite
100 gramas de queijo parmesão ralado
1 colher (sopa) de páprica doce
porção: 8 pessoas
dificuldade: fácil
preço: médio
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