Por mais que nos esforcemos, o que entra pelos nossos olhos é fruto de nossa cultura, o outro pode nos dizer com riqueza de detalhes o que foi que ele viu, passou, não adianta: seremos só espectadores das alegrias e dores alheias.
Embora saibamos o que se passou em nosso país com as tribos indígenas, levei um susto quando, ao estudar uma das tribos Guarani, me deparei com o depoimento de um velho cacique, sobre quem nós somos, digo, nós todos “brancos”, brasileiros não índios. Para eles, somos ainda aqueles europeus, o “branco” invasor que lhes usurpou as terras que lhes pertenciam originalmente, dadas pelas mãos de seus deuses, ou Tupã. Pois é, eu me sentindo uma brasileira legítima, abençoada pela miscigenação de negros, índios e europeus, sou na verdade, pela ótica dele, nada mais que uma descendente europeia.
Para eles, os perdedores da grande guerra, encontraram, na retirada de campo, uma estratégia para que não houvesse a dizimação da etnia. E, muito embora vivam muito perto dos “brancos”, os aspectos cerimoniais e religiosos da tribo são mantidos em segredo de nós. Eles não andam pelados, comem bolachas, bebem guaraná, pinga e veem televisão. Ah! Por isso, nós tendemos a encerrar a conversa e dizer: índio o quê?! Acho que eu já disse isso também... pouco importa. Temos uma tendência a exigir que o estranho a nós seja de uma originalidade incorruptível para que mereça qualquer atenção, exigimos do outro uma retidão de conduta e princípios que nem Jesus Cristo escaparia ao nosso crivo.
Mas o assunto deveria ser gastronomia! Nas minhas incursões ao mundo das abelhas nativas e índios, se descortinaram coisas extraordinárias. Por exemplo: há muitos anos, quando nossas terras jorravam leite e mel, havia uma festa, chamada festa do mel. Vários meses eram necessários para a preparação dessa festa, cabaças e mais cabaças eram cheias com litro e mais de litro de mel. Chegava-se a incrível soma de 160 litros de mel; todos os dias as mulheres da tribo cantavam embaixo desse mel. Quando a quantidade era suficiente, convidavam-se as tribos vizinhas para a grande festa, regada a caldo de mandioca, mel e caça.
Outro: segundo o jornal France-Soir, de 1965, os antropofágicos Cinta Larga, famosa tribo indígena, tinham aprendido uma nova receita: haviam matado um gaúcho e o besuntaram de mel e o assaram.
Uma outra tribo antropofágica, os Guayaki, do Paraguai, segundo esse mesmo jornal, diziam que haviam apenas dois alimentos fortes demais para serem comidos puros, um era o mel, que deveria ser diluído em água (hidromel), o outro era a carne humana, que só ficava boa quando cozida num ragu com palmito.
Hoje, a palavra mel rima com saudades. Cenas de terror a parte, ao que se sabe, o mel fez parte da vida deles enquanto a própria vida indígena existia. Aquela vida legítima. O que nós nos esquecemos é que a cultura indígena precisa de espaço amplo e preservado para florescer. Demarcação confinada de terra muitas vezes só faz deles um espectro de baixa autoestima que serve ao escárnio da sociedade.
DICA DA SEMANA
Comidinha rápida
Testei dia desses uma outra receita do Quando Katie Cozinha, já falei, não é lá grandes coisas, mas dá receitas gostosas e rápidas. Uma delas rende um jantar saboroso e muito rápido. Você só precisa ser esperta e acertar o pré-preparo.
Na verdade, fiz alguma modificação para o bem da leveza do prato e achei que ficou muito bom.
Primeiro, compre algumas caixas de tomatinho cereja ou do pera, mas tem que estar maduros. Corte-os na metade, disponha numa forma uniformemente, sem sobrepor. Salpique sal grosso, azeite e uma erva de sua preferência. E asse num forno a 160º.
Disse para fazer bastante porque esses tomates assados acompanham qualquer coisa e são uma saída para aqueles dias de aperto.
Mas no caso aqui eles se juntarão ao salame cortado em pequenos pedaços. Cozinhe um punhado de macarrão tipo gravatinha ou mini parafuso, deixe al dente, escorra e jogue um fio de azeite.
Daí ajeite tudo num refratário: o macarrão, o salame, os tomates. Coloque creme de leite fresco e bastante queijo ralado e leve ao forno para dar aquela amalgamada. Quanto mais tomate, melhor. A receita original coloca molho branco, tipo bechamel. Mas assim fica com um gosto mais fino.
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