Nestas férias de verão minha irmã Sandra, meu cunhado José Reinaldo e eu levamos nossos netos João e Eduardo a Brodowsky, estimulados pelo convite da Fundação Casa Museu de Portinari para visitas e oficinas. As crianças conheceram toda a casa do artista célebre, andaram pelos jardins, brincaram na praça e passaram duas horas pintando, sob supervisão de monitoras. Foi um dia feliz, que ainda nos ofereceu a oportunidade de adquirir o livro Retrato de Portinari, de Antônio Callado, terceira edição da Jorge Zahar. Brodowsky , cidade pequenina, felizmente tem tido na sua administração prefeitos esclarecidos para quem museu jamais será compreendido como “lugar onde se guardam coisas velhas”, no dizer desta excêntrica e lastimável figura que Sidnei Rocha fez o desfavor de levar à chefia do Executivo de Franca.
O livro é uma produção primorosa, projeto gráfico e composição de Mari Taboada. Assina o texto Antonio Callado, o que já timbra o volume com selo de qualidade. Prosa límpida, frase bem articulada, léxico simples, estilo lapidado e certa eufonia autoral conferem ao discurso elegância, sobriedade e muita informação. Escritor e jornalista já renomado, Callado aceitou convite do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1956, para escrever o perfil do já celebrado internacionalmente Cândido Portinari. Antes conhecidos apenas de vista e por suas obras, eles se encontraram , tornaram-se grande amigos, construíram juntos a expressiva biografia que teve reedição em 1978 e 2003.
Duas partes compõem o livro. A primeira delas se subdivide em O Menino e o Medo; Criação e Preguiça; Justiça Social e História do Brasil; A Arte ri por último. A segunda se estende por quatro capítulos: O retratista retratado; As “distrações” dos místicos; A morte; O poeta Portinari.
Na contracapa, avisa o autor: “Se o segredo de um retrato é a simpatia entre modelo e pintor, e a vontade que tem o pintor de revelar ao mundo aquilo que de importante e de universal surpreendeu num canto de boca ou num vinco de testa- se é isso, confio em que meu Retrato interessará o leitor. Portinari posou para mim uma meia dúzia de vezes- ele falando, eu perguntando e tomando notas. De todos esses desenhos de Portinari que fiz em dois cadernos, passei ao quadro, ao Retrato. É o que exponho nas páginas que vão ler.”
E a leitura começa por uma descrição da avó materna, figura de enorme importância na alma do menino Candinho e nos motivos do pintor Portinari. Maria Torquato di Bassano, longas saias cáqui de compridos bolsos onde guardava moedas e balas para as crianças, transitava pelas ruas de Jardinópolis com um carrinho puxado por cavalo preto, caçoando de tudo e comprando caixas de manga que vendia em São Paulo. Ela foi a primeira exportadora dessas frutas no Estado. Em desenho destinado ao livro, Portinari a mostra como velha e intrépida amazona na sua carroça rumo à capital. E legenda o desenho feito especialmente para o livro: “fabulosa, parecia um cardeal. Não julgava ninguém. Se um bêbado lhe pedia uma esmola, ela dizia: “toma, vai beber”.
Na senda do olhar infantil, que Callado recupera em conversas com Portinari, emerge o medo do diabo, um homicídio na praça da pequena cidade, os primeiros santos vistos em estampas na casa de um tio matriz de todos os que o inspirariam vida a fora. E a maçã, claro. A maçã que desenhou entre os cinco e seis anos: “Eu fazia uma maçã, dentro da maçã fazia uma mesa e em cima da mesa punha outra maçã. Pintei isso não sei quantas vezes”. Callado comenta: “Portinari não é homem de analisar suas maçãs: pinta-as ou come-as. Mas é curioso assinalar que o menino partiu para a pintura de todas as formas de pintura da maçã- da maçã onde havia uma mesa onde havia uma maçã.”
A propósito, esta vem a ser a estrutura do livro que nos desvela um pouco da vida e das inspirações do pintor. Callado recolhe um fato, uma frase, uma descrição de Portinari e a contextualiza, ilustrando-a, em geral com desenho produzido especialmente para o livro. A partir do esboço de um vaqueiro tocando boi na praça de Brodowski , passando pelo estudo para Criança morta, da série Os Retirantes, chegando ao muralista de Guerra e Paz, o leitor vai mergulhando nas informações e dados passíveis de fornecer uma imagem multifacetada do biografado. De sua compaixão pelo sofrimento dos pobres e suas simpatias pelas políticas socialistas, Callado recorta histórias expressivas. Algumas têm como personagens Dona Dominga e Seu Baptista, camponeses italianos que “vieram crianças para a terra paulista a fim de plantar o café das safras áureas e fazer germinar o menino Cândido”, no já distante 1903. Outras nos mostram estranhos a quem a fina ironia do pintor fuzilou com resposta pertinente, como é o caso de um duque europeu que circulava na exposição Meninos de Brodowski e retirantes. Depois de muito observar, quis o homem comprar alguma coisa e perguntou a Portinari: “Não há umas flores?” “Flores, não” ,disse o pintor, “só tenho miséria”.
AUTOR DE QUARUP
Formado em Direito em 1939, Antonio Callado (1917-1997) nunca exerceu atividade na área jurídica. Mas na imprensa diária foi nome sempre presente desde 1937, quando começou em O Globo. Em 1941 mudou-se para Londres, onde trabalhou para a BBC nos anos sombrios de Segunda Grande Guerra. Depois da libertação de Paris foi para o serviço brasileiro da Rádiodifusão Francesa.
Neste período europeu descobre sua “tremenda fome de Brasil”. Lê incansavelmente literatura brasileira e alimenta o desejo de, ao voltar, conhecer o interior do país. No retorno, satisfaz esse desejo ao fazer grandes reportagens sobre Nordeste e Xingu para grandes jornais do Rio e São Paulo. É dele um dos melhores retratos de Miguel Arraes, a partir de entrevista como a realizada por Portinari. Ao mesmo tempo, chefiou a equipe que elaborou a primeira edição da Enciclopédia Barsa.
Estreou na literatura em 1951, mas sua produção da década contempla mais peças teatrais, encenadas com sucesso de crítica e público, como Pedro Mico e O tesouro de Chica da Silva. A escrita de romances tomou impulso nos anos posteriores a 1964, o que pode soar emblemático. No período surgem seus títulos mais importantes. Alinhado entre os intelectuais que se opunham ao regime militar, foi preso duas vezes e escreveu o romance mais engajado, Quarup, publicado em 1967. Quarup é nome indígena que se refere a um ritual dos mortos para trazê-los de novo à vida. Depois vieram Bar Don Juan, Reflexos do Baile, A expedição Montaigne, Sempreviva.
Callado escrevia à mão e mantinha uma rotina de trabalho com horário rígido para todas as atividades, que incluíam duas caminhadas por dia. Mandou fazer uma mesinha portátil que o acompanhava pela casa toda, permitindo-lhe escrever em qualquer lugar. Não discutia, nem comentava seu trabalho com ninguém, até que estivesse finalizado.
Recebeu várias condecorações e prêmios, no Brasil e no Exterior.
LIVRO
Título: Retrato de Portinari
Autor: Antonio Callado
Editor: Jorge Zahar
Ano: 2003
Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora
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