Carne seca


| Tempo de leitura: 2 min
Vivi num tempo em que comida não era veneno. Comida era prazer. Daí, o meu bom apetite. Como de tudo e com muito gosto. Não como por fome. Como por gula, gula esta que a idade vem impondo limites. Aprecio todas as culinárias, todos os pratos. Não gosto daqueles que misturam o sal com o açúcar. Abro uma exceção para um arroz com feijão, um ovo estrelado e uma lingüiça frita que vêm acompanhados com bananas da terra fritas e cobertas de açúcar cristal. Da culinária nacional, delicio-me ainda com um leitão pururuca, um franguinho ao molho pardo, um pernil, uma suculenta feijoada, um...Fico muito satisfeito quando brindam-me com uma carne seca com mandioca, inhame ou, especialmente, com cará. Bem cozidos os ingredientes, é um prato inigualável.Atualmente, está difícil achar uma boa carne seca do tipo daquela produzida pela salgadeira dos irmãos espanhóis Chiné ou Ximenes (não me lembro bem dos sobrenomes), localizada na rua General Teles, a três quarteirões do centro da cidade. Aliás, hoje em dia está difícil até de se encontrar um bife macio, suculento, comestível.
 
Antigamente, a carne seca era uma presença constante na mesa do brasileiro. Carne verde, isto é, carne fresca de vaca, só nos dias da matança do gado. Depois, a carne era salgada e consumida ao longo do mês. Mesmo a carne de porco era frita e conservada na banha contida nas latas de vinte litros. Fresquinho, para comer no dia a dia, só mesmo o franguinho com angu, com quiabo, com pequi e outros acompanhamentos. 
 
Geladeira era coisa para os magnatas. Mal e mal existia a energia elétrica. As carnes eram conservadas na banha ou no sal. E como eram saborosas! Também, pudera!, era tudo caipira: o frango, o porco, a vaca e o consumidor. 
 
Hoje em dia, as coisas são bem mais fáceis. O frango vem depenado, limpo e em partes. O porco não tem mais aquela gordureira. Nos açougues, compra-se a parte que quiser da carne de vaca ( que vem fresca ou congelada ). Porém, ao comer um prato de carne seca com cará , além do sabor agradável, eu ainda me lembro, lembro-me sim , de um Brasil mais  puro, mais autêntico, mais saboroso.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários