Filicídio é o nome do homicídio da mãe/pai que mata o filho. Nesse final de semana morreu criança de cinco anos agredida pela própria mãe. Um misto de sentimento, dor, pesar, tristeza, indignação, perguntas sem respostas, tomou conta de você? Crimes com vítimas de pouca idade geram comoção, principalmente quando o autor é genitor, a pessoa que gerou e de quem se esperava proteção e amor. O que aconteceu? Quem essa mãe realmente matou?
É fácil dizer que matou seu filho, mas essa é resposta simplista, sem reflexão mais apurada. Sugiro irmos além. Tomo mão do livro ‘A quem o assassino mata?’, de Silvia Elena Tendlarz e Carlos Dante Garcia, editado em 2013 pela Atheneu. Freud analisa o ‘criminoso inconsciente’, ou seja, quem delinque ou mata por sentimentos inconscientes de culpabilidade, que parece não conservar senso crítico, consciência de culpa. Alguns crimes, na verdade, são suicídio camuflado. Para Lacan, no caso ‘Aimeé’, o crime é autopunição, matar através do crime o inimigo interior. Matar não equivale a ‘matar o outro’. Há, ao menos, quatro níveis de análise: (1) vítima-objeto; (2) vítima representação imaginária; (3) vitimização simbólica e (4) autopunição. Para Lacan, no homicídio o autor também mata seu Kakon, seu ‘inimigo interior’.
Por fim, em estudo sobre filicídios realizados por Ana Cristina Freire e Barbara Figueiredo, psicólogas investigadores da Universidade do Minho, Portugal, constatou-se perturbação psiquiátrica, depressão, perturbação esquizo-afectiva, esquizofrenia e stress extremo no perfil de quem comete. ‘O filicídio evidencia vulnerabilidades em termos da saúde mental do perpetrador mas, também, na estrutura de cuidados à criança’ e que ‘existe há incidência significativa, que tem sido subestimada.’ É mais comum que imaginamos?! Então, porque nos revoltamos? Será que nos identificamos como possível autor? Você teve vontade de matar essa mãe? Teve, possivelmente, o desejo de matar o seu Kakon, seu inimigo interior! Viu porque precisamos ir sempre além das palavras?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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