Respostas são tudo o que esperam os familiares de sete vítimas mortas em circunstâncias suspeitas ao serem atendidas na Rede Municipal de Saúde no ano passado. Mas não há sinais de que irão conseguir. Em fevereiro, mais uma vez, a secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, esteve na Câmara para prestar esclarecimentos. Era uma oportunidade de colocar um fim na agonia. Não foi o que aconteceu. Rosane acabou reconvocada e é aguardada na sessão de hoje.
No dia 10 de fevereiro, a secretária chegou à Câmara com uma hora de atraso. Os vereadores, que poderiam pressionar e cobrar respostas, assistiram calados Rosane discursar, sem qualquer interrupção, por praticamente uma hora.
Para os familiares que estavam no plenário à espera de explicações, foi revoltante. “Mais uma vez, saí sem saber o que aconteceu com a minha filha. É desesperador você ouvir a responsável pela Saúde falar por uma hora e não dar uma informação sequer sobre como sua filha morreu. É muita falta de respeito”, disse Silson Ribeiro, pai de Luara Prieto, morta aos 25 anos depois de passar oito vezes pelo Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”. Ele também criticou a postura dos vereadores de não cobrarem respostas. “Todos permaneceram calados. É um absurdo. Parece que ninguém está ligando para o fato de uma jovem de 25 anos ter morrido da forma como a minha filha morreu”.
Natália Aparecida da Silva, filha de Francisca Firmina da Silva, que morreu em março do ano passado, também se revoltou. “É uma vergonha. A passagem da secretária pela Câmara foi mais uma palhaçada. A secretária mentiu descaradamente sem que nenhum dos vereadores se posicionasse. Estou decepcionada”, disse Natália.
Como Silson, ela disse que também não consegue informações sobre a sindicância que a secretária alega ter aberto. “Não vi documento nenhum. Não tenho informações sobre nada. Se o relatório está disponível para a família, por que nunca me mostraram nada quando fui à secretaria questionar? Eles riem na nossa cara, debocham do nosso sofrimento. Mas não vou deixar passar, quero justiça.”
A mesma dificuldade também é enfrentada pelos familiares de Clésia de Araújo, que morreu em fevereiro de 2014, aos 35 anos. Segundo o advogado da família, Fernando Goulart, apenas recentemente, passado quase um ano da morte, a primeira etapa das apurações pelo Cremesp foi concluída. Fernando analisa os documentos para conversar com os familiares de Clésia para decidir se propõe ou não uma ação de indenização na Justiça.
Sem retorno
O Comércio também não obteve respostas sobre a apuração feita nos atendimentos às sete vítimas. Em entrevista depois de seu pronunciamento na Câmara, a secretária disse que havia aberto seis sindicâncias e que quatro estariam concluídas, mas não forneceu detalhes nem identificou quais seriam essas sindicâncias. As famílias afirmam não terem sido notificadas a respeito. “Ela não me atende. Mal me olha nos olhos. Vou à secretaria todo mês atrás de informações, mas agora eles nem me recebem”, disse Silson.
No dia 26 de janeiro, o Comércio protocolou um pedido com base na Lei de Acesso à Informação para saber o resultado das sindicâncias, mas até o momento não houve resposta.
Na mesma semana em que esteve na Câmara, a secretária voltou a repetir a postura adotada durante seu pronunciamento. Ao responder o e-mail enviado pelo Comércio com questionamentos sobre os casos, usou exatamente o mesmo texto para quase todas as perguntas (veja quadro nesta página).
Devido à repercussão negativa de sua visita à Câmara, o vereador Márcio do Flórida (PT) apresentou requerimento reconvocando a secretária para novo depoimento nesta terça. Ainda não há confirmação se ela irá.
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