Dias depois de fotografar ruínas em Franca, falo com uma antiga conhecida, Graziela Alves Corrêa, ex-presidente do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) de Franca. Grande conhecedora do assunto, por certo, poderia jogar luz às minhas inquietações. Afinal, imputar a responsabilidade pela perda do patrimônio arquitetônico histórico somente à crescente especulação imobiliária, que fez com que o metro quadrado na cidade alcançasse cifras de cidade grande, seria demasiadamente simplista.
Nesse sentido, a contribuição de Graziela, historiadora e diretora do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, foi fundamental. No pouco tempo de conversa, pude entender um pouco mais sobre a importância da preservação desses bens de valores arquitetônicos e culturais e a complexidade de um processo de tombamento.
Para ser tombado, me explicou ela, um bem passa por um processo que obedece a diversos critérios. São avaliados sua importância histórica, se naquele local viveu ou trabalhou determinada personalidade; se o bem pertence a um período específico; o material utilizado para construí-lo e se ele exemplifica determinado estilo arquitetônico. “Muitas pessoas nos procuram pedindo para que determinado bem seja tombado porque traz determinado detalhe em sua arquitetura, como o desenho de flores, por exemplo. Na verdade, pode ser que exista outros dez com a mesma característica arquitetônica e que sejam mais importantes”.
Graziela explicou que hoje, por conta do alto custo de manutenção, não se tomba mais um conjunto, como aconteceu em certas cidades históricas, como Paraty, ou as cidades históricas de Minas Gerais. Mas apenas um exemplar de todo o conjunto. É importante dizer que o bem tombado obedecerá as regras dispostas na linha de preservação. Quando particular, o bem poderá ser explorado. Contudo, não poderá ter sua fachada descaracterizada.
Entre muitos aspectos discutidos, Graziela puxa na memória o último imóvel tombado em Franca - hoje são mais de 70 bens tombados em Franca. “Foi em março do ano passado. Uma casinha verde, construída na década de 1920, na rua Júlio Cardoso”. Além de ser o último exemplar dessa época naquela região, ela teria servido de ateliê para o famoso pintor francano Chafic Felipe, morto em dezembro de 2010.
Essas reflexões acabaram por me levar à inevitável conclusão: poucas cidades do País cuidam de suas histórias. Impossível também, dentro desse contexto, não pensar numa frase atribuída à filósofa brasileira Sônia Maria de Mattos Lucas: “Preservar o passado é construir o futuro”.
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