Numa tarde de quarta-feira, no início de fevereiro, um dos carros de reportagem do GCN estaciona numa das vagas existentes na rua General Osório, no trecho entre a Padre Anchieta e a Campos Sales, junto da calçada da Escola Industrial, no Centro de Franca. Desço do veículo e atravesso a rua em direção às ruínas de uma antiga casa. Sobre a calçada, ainda é possível encontrar alguns poucos restos de entulho. Desvio dos mesmos e começo a analisar o terreno, onde ainda há algumas coisas amontoadas. Vasculho o material em busca de indícios que pudessem remeter ao período à qual a antiga casa ali existente pertencia. Olho para pedaços de telhas francesas, para forros de madeira - alguns já tomados por cupins - e para antigos tijolos maciços, vendidos hoje a “preço de ouro” nas casas de demolição. Mas nada do que encontro satisfaz as minhas indagações. Fotografo o local e vejo, ao fundo, um cipreste italiano que, pela altura e circunferência, me sugere ter o mesmo tempo da “falecida” construção.
Um pouco mais distante vejo o prédio do Tower Hotel que, com sua forma arredondada, lembra os traços da arquitetura contemporânea do arquiteto de origem grega Nícolas Kílaris, e destoa das demais construções ao seu redor. Fico ali entretido por um tempo na busca de ângulos que evidenciassem algo interessante. Abaixo um pouco e enquadro no visor da câmera uma cena que tempos mais tarde, já na redação do jornal, um amigo sugeriu ser de um terremoto. Realmente, o piso rachado somado aos entulhos dava essa conotação à imagem. No momento em que deixo o terreno, com o intuito de voltar ao carro de reportagem, resolvo caminhar até o prédio ao lado, de onde um senhor me observa a distância. Me apresento e explico o motivo da minha visita ao local. Posso dizer que os poucos minutos de conversa foram produtivos. O simpático senhor, que disse se chamar Hermes, há muitos anos mantém um estacionamento no endereço e parece conhecer bem a vizinhança daquele pedaço. Pergunto sobre a casa demolida e ele engata: “Conheço a história dela sim! Pertenceu à família Diniz. Foram eles que lotearam aquela área do Jardim São Luiz, na zona Leste da cidade”.
Aliás, segundo ele, esse era o nome da imobiliária que até então funcionou ali. Na verdade, um misto de residência com imóvel comercial. Nos fundos, a residência. Na frente, a imobiliária. “A casa era muito antiga. Devia ter mais ou menos uns cinquenta anos. Já não estava em boas condições”. Hermes, que especulava quem ia até o local, disse que descobriu que a área foi vendida para o pessoal de um cartório de notas. “Soube que vão construir um prédio comercial de três a quatro andares, com estacionamento subterrâneo, para abrigar o cartório”, concluiu.
Reflexões
Depois dessa visita à região central de Franca fiquei com as ideias sobre o assunto fervilhando. Andava perambulando pela cidade buscando respostas para algo que há tempos me inquietava. Por qual motivo, do dia pra noite, tantos casarões acabaram demolidos, sobretudo no coração de Franca? Por que pouco nos preocupamos em preservar as características arquitetônicas e históricas de nossas construções? Quem anda pelo Centro de Franca sabe do que estou falando. É uma amalgama de estilos. Os que sobreviveram, como por exemplo aqueles que estão na rua Major Claudiano, entre a Thomaz Gonzaga e a Simão Caleiro, estão ofuscados pela poluição visual. Quase não são percebidos.
Penso no edifício da Baronesa da Franca, perto do tradicional Café Globo, na Praça Barão, e no tanto de estabelecimentos comerciais que funcionam na parte debaixo do imóvel. Lá vendem sapatos, bijuterias, lingeries e tantas outras coisas. Com uma loja colada na outra, como perceber, na parte superior, a fachada de um prédio com valor histórico? Quase impossível! E o prédio da Sociedade Italiana, no calçadão da rua Voluntários da Franca? Idem!
Vem, então, à memória outros que nem existem mais. E que mal conheci. O majestoso Hotel Francano que, inaugurado em 1928, protagonizou os primeiros movimentos pela preservação do patrimônio histórico de Franca. Mas, infelizmente, sucumbiu. No seu lugar foi erguida uma agência bancária, que existe até hoje. E o prédio onde antigamente funcionava a Escola Cultura Inglesa, no cruzamento das ruas Marechal Deodoro e Ouvidor Freire, bem ao lado dos Correios? Depois que a escola migrou dali para um endereço na mesma rua, o magnífico casarão foi ao chão, dando lugar a uma loja dessas grandes redes nacionais que comercializam roupas, cama, mesa, banho, etc.
Fragmentos
Antes de ir às ruínas da antiga casa na rua General Osório, já havia ido a outros lugares. Nesse mesmo endereço, no alto da Estação, onde a rua começa, no entroncamento com a avenida Frei Germano, um imenso barracão onde funcionava uma loja de peças e acessórios para motos foi ao chão há cerca de um ano. No local, hoje, apenas uma placa de “vende-se”. A área de 400 metros quadrados que provavelmente abrigou um dos mais antigos imóveis daquela região da cidade, agora está limpa, pronta para ser comercializada. Qual será o seu novo destino? Outro imóvel comercial, mais novo e mais moderno? Ou será ela também absorvida pelo voraz mercado imobiliário residencial, sempre pronto para lançar um novo empreendimento?
No Centro, depois da conversa com Hermes, sigo dois quarteirões à frente e dobro, a pé, a rua Padre Anchieta, virando no quarteirão debaixo, na rua General Carneiro. Ali, na margem esquerda da rua, estão as ruínas da antiga fábrica de laticínios Abbud. Desativada há décadas, teve parte de sua área derrubada. Tornou-se, a partir de então, um incômodo para os vizinhos. “Virou criadouro de mosquito da dengue. Além de servir de dormitório para moradores de rua”, disse o funcionário de um lava-jato instalado em frente. Quando percorro a área, de sobressalto, me vem uma comparação. As paredes em parte esburacadas, como se tivessem sido crivadas por balas de grosso calibre, as colunas de concreto tombadas ao chão, o ferro retorcido, tudo muito me lembra o cenário de uma guerra. É como se aquele local tivesse sofrido um bombardeio aéreo. Mas fosse assim, onde estariam as vítimas? Seriam elas todos nós? Como numa metáfora, vitimados pela perda da memória visual coletiva. A juntar os cacos para reconstruir nossas referências de passado. Depois do momento de abstração, retorno à realidade. Volto para o carro e sigo para redação...
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