Foi na sala de seu apartamento, na Vila Santa Cruz, no final da tarde da quarta-feira, mesmo dia em que a cidade recebeu a visita do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que o deputado estadual Gilson de Souza (DEM) recebeu o Comércio para essa entrevista.
Calmo, direto e conformado com o fato de não ter sido reeleito, Gilson mostrou que as 13 disputas eleitorais na carreira de mais de 30 anos de política lhe trouxeram maturidade.
Ele admitiu falhas na estratégia de campanha, mas demonstrou ficar incomodado quando o assunto é o seu total de votos na última eleição em outubro do ano passado.
Por 12 anos, Gilson ocupou uma das 94 cadeiras da Assembleia Legislativa de São Paulo. Com seu jeito simples, conquistou espaços no governo e uma proximidade com secretários e até com o próprio governador. Ele espera que esses laços o conduzam de volta à Assembleia. Gilson é o terceiro suplente de uma coligação com 37 eleitos. “Se apenas três deles saírem, eu volto”, disse, esperançoso.
Apesar do otimismo, a duas semanas de desmontar seu gabinete, Gilson ainda não tem uma definição sobre seu futuro político. Até a última quarta-feira, nenhum convite oficial havia sido feito para que ele possa ocupar um cargo no governo do Estado ou no alto escalão de seu partido. Abandonar a vida pública, para ele, não é uma opção.
Sobre a disputa da Prefeitura em 2016, que já começa a agitar os bastidores políticos da cidade, diz que, por enquanto, está fora.
Apesar de ter sido o candidato mais votado em Franca para deputado estadual, o senhor não conseguiu se reeleger para o quarto mandato. Na sua avaliação, o que deu errado?
Na minha avaliação, não concordo que algo tenha dado errado. No estado, estou entre os 100 candidatos mais votados. Fui o 77º com maior número de votos. Se as 94 cadeiras da Assembleia fossem ocupadas pelos mais votados, eu continuaria sendo deputado. O que aconteceu, no meu caso, é que a coligação da qual meu partido fez parte (formada pelo PSDB, DEM, PRB e PPS) foi muito pesada. Não me faltou voto. Foi uma questão de legenda.
O senhor diz que não deu nada errado e que não faltou voto. Mas o fato é que o senhor não foi reeleito. Além disso, sua votação também diminuiu quase 10 mil votos de 2010 para 2014 (em 2010 foram 77.664 e, em 2014, 67.797). O que houve então?
Não chegou a ser 10 mil. Quer dizer, no total sim. Mas na região de Franca, essa redução foi menor. Tivemos um desempenho não tão atuante como na eleição passada. Fizemos em Franca quase 50 mil votos, fui o mais votado na cidade. Além disso, na eleição passada, éramos oito na disputa. Desta vez, fomos 12 candidatos. Então, proporcionalmente, nossa votação cresceu. O que acho que aconteceu é que no nosso sistema regional de campanha houve um pouquinho de descuido e acabamos não conseguindo o número de votos suficientes para sermos eleitos pela coligação.
Pelo que dá para perceber, o senhor não fala em erro. Então, diante da sua não eleição, o que o senhor mudaria ou faria diferente se pudesse voltar no tempo?
Toda eleição é uma disputa e eu tenho a experiência de ter participado de 13 pleitos. Em cada um, a gente amadurece mais e aprende. O que aconteceu, na verdade, é que, politicamente falando, a gente teve alguns erros, erros de cálculo.
O que seria exatamente um erro de cálculo politicamente falando?
De acompanhamento. Às vezes, você como deputado ajuda aquele determinado prefeito, aquele vereador, mas na hora de buscar o voto, você não é tão atuante como foi trabalhando na liberação de recursos.
O senhor se sente traído por esses parceiros políticos que ajudou durante seu mandato como deputado?
Não. Não me sinto, não. Na verdade, foi um comodismo. Esse negócio da gente não acompanhar a evolução do voto é o que aconteceu. Não tenho a quem culpar. Fui muito atuante na liberação de recursos, ajudei todos os municípios da região de Franca. Mas não fui tão atuante na hora de fazer a colheita, na hora de pedir o voto da população.
Como encara essa situação?
Acho que essa foi a grande lição que aprendi nas eleições do ano passado. Percebi que aqueles que nem trabalharam tanto, mas souberam se fazer presentes na campanha, na hora de pedir o voto foram muito mais bem sucedidos do que eu e se reelegeram deputados. Não foi falta de trabalho. Liberei recursos para todos os municípios. O que ficou comprovado é que se você não tiver sua assessoria comprometida, acompanhando o voto, não adianta. Não adianta apenas acreditar que por conta do seu passado ou por que alguém disse que iria te ajudar que você será eleito. Isso não acontece.
Como é ter de deixar a Assembleia depois de 12 anos trabalhando como deputado?
É natural. Nada é eterno. Quem é político tem que entender isso. Mas o que posso dizer é que, com mandato ou não, continuarei trabalhando por Franca. Tenho a minha experiência, meu patrimônio de amizades e relacionamentos que adquiri nestes 12 anos e que pretendo manter e usar para me ajudar a continuar conseguindo projetos e recursos para Franca e região. Serei um deputado sem cadeira. E ainda acredito que esteja fora da Assembleia por um momento apenas. Sou o terceiro suplente de uma bancada de 37 deputados, que significam mais de um terço da Assembleia. As minhas chances de reocupar uma cadeira na Assembleia são grandes nos próximos anos.
E como fica o ânimo para seguir?
Não vou desanimar nem abandonar meu trabalho. Continuarei buscando meus sonhos. Não tenho motivos para desanimar. Tive quase 70 mil votos, fui um dos candidatos mais votados do Estado. Essa derrota só veio me fortalecer. Lembro sempre da história do nosso governador Geraldo Alckmin. Ele disputou a presidência e perdeu. Depois disputou a Prefeitura de São Paulo e perdeu. Acabou sendo secretário de Estado. Anos depois aceitou novamente entrar na disputa. Foi eleito e reeleito agora. Política é assim. Tem seus bons e maus momentos e quem trabalha com isso tem que estar preparado. Acho que uma derrota serve sempre para você fazer uma reflexão. Mas a vida continua. Temos que seguir em frente.
Muitos dos seus assessores, eram também de sua família ou amigos. Como foi ter de dispensá-los? E como está a relação de vocês?
Na minha assessoria, não tinha nenhum parente, mas eu trabalhava com muitos amigos. Minha equipe era formada por gente que conheço há muito tempo. Acho que, como eu disse, faz parte da vida. Todos eles sabiam que estávamos em uma disputa. Podíamos ganhar ou perder. Infelizmente perdemos. Não foi uma vontade minha. Foi uma situação que não tive como reverter.
Como fica agora seu futuro político?
Meu mandato vai até o dia 14 de março. Ainda não defini nada. Estou deixando as coisas acontecerem naturalmente. Quero primeiro encerrar meu mandato para depois analisar qual deverá ser meu caminho. Se irei para algum cargo no governo do Estado ou se ocuparei um espaço dentro do partido mesmo. Ainda não parei para pensar sobre isso.
O senhor, então, pretende continuará na vida política...
Pretendo, não. Eu vou continuar. Esse é meu caminho. A qualquer momento, também posso voltar a ser deputado.
O senhor recebeu convite para ocupar algum cargo no governo? Chegou a conversar com o governador Geraldo Alckmin a respeito?
Nós tivemos algumas conversas, mas nenhuma especificamente para tratar do meu futuro. Tudo tem o seu tempo e a sua hora. Como ainda não terminei meu mandato, primeiro preciso fechar esse ciclo. Quem está de fora não entende. Mas para nós essa espera é normal. Todo mundo me pergunta, quer saber o que vou fazer. Mas ainda não tenho essa resposta. Estou cumprindo meu mandato de forma correta.
Mas como o senhor mesmo disse, o mandato termina no dia 14, ou seja, daqui duas semanas. Essa falta de definição não o incomoda?
É como eu disse, tudo tem o momento certo e a hora certa.
Hoje o senhor se mantém com os vencimentos de deputado estadual. Mas daqui a 15 dias, não receberá mais pela Assembleia. O senhor não parou para pensar como ficará sua vida?
Não. Ainda estou trabalhando, ainda tenho o meu cargo e recebo meu salário. A partir do dia 15, isso vai mudar. Será uma nova vida. Dependendo do desenrolar das conversas, posso ir cuidar dos meus negócios, tenho lojas de comércio e conseguirei sobreviver. Mas quero deixar claro que meu foco é a política. Não me vejo fazendo outra coisa da vida. Ainda estou no jogo.
O senhor disse que conversou com o governador algumas vezes depois da derrota nas urnas. Não falaram sobre seu futuro político? Sobre a possibilidade de vir a ocupar um cargo no governo?
O que posso dizer é que o meu partido é da base de apoio. É uma parceria muito antiga, da época do Mário Covas (ex-governador do Estado). Eu estou aguardando as coisas ocorrerem naturalmente.
Caso essa expectativa do senhor de voltar à Assembleia não se concretize, o senhor pretende disputar a Prefeitura em 2016?
Não. Na política, tudo é uma questão de momento. E não acho que esteja no momento de falarmos em eleição municipal. Uma disputa nasce naturalmente. Eu, a princípio, não sou candidato.
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