Quaresma e os prazeres


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Dias desses, o cronista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris, contou-nos sobre um teste, o teste do marshmallow. Resumindo: crianças pequenas eram colocadas diante de um bloquinho de doce, podiam comê-lo ou não, quem resistisse comer até a volta do educador, ganharia outro bloquinho de doce. Claro, a maioria correu e comeu o doce, mas algumas conseguiram esperar. Até então, a provocação tinha lá sua graça, mas o mais interessante mesmo veio a seguir. Quase 30 anos depois, o pesquisador procurou pelas “crianças” testadas e pode comprovar que aquelas que resistiram à tentação inicial, estavam mais bem sucedidas na vida: emocional/financeiramente.
 
Eu, e acho que muitos, faríamos a leitura errada dessa comprovação: eu diria que o resultado mostra que fica melhor aquele que consegue se privar dos prazeres. Mas não é tão simples assim, é melhor que isso. Fica melhor, segundo a pesquisa, quem consegue se privar de um prazer imediato para usufruir de algo maior.
 
A questão é que a equação prazer/recompensa pode ser diametralmente oposta, segundo cada um. Chegou mais uma vez a Quaresma e, com ela, começo a ouvir aqui e ali os sacrifícios físicos dos católicos a fim de partilhar, ainda que de forma ínfima, o sofrimento de Cristo. Na maior parte das vezes, esses sacrifícios se revelam nos interditos alimentares. E é só fechar as portas, para vermos a água do prazer teimar em vazar pelas frestas...
 
A história dos interditos alimentares vem dos judeus, mais tarde a Igreja Cristã elaborou os seus próprios. Não sem motivo, penso, o cristianismo nasceu numa era, a romana, em que se dava excessiva importância aos banquetes, quer fosse em quantidade e qualidade e duração. Um dos principais interditos é justamente dispensar a carne vermelha, sobretudo na Sexta-Feira Santa. E não vale substituir pelo bacalhau; no século XX, bispos e o Papa declararam que isso não significa assim um sacrifício...
 
E como tudo se moderniza, hoje em dia abundam as promessas relativas a abstinência de chocolate e ou doce de modo geral, normalmente mulheres, que sem pudores arrematam: agrado o santo e ainda perco uns quilinhos - a promessa ajuda ao regime que ajuda a promessa.
 
Para muitos, toda essa conversa é besteira - e voltando ao teste do marshmallow, seria simplesmente a abstenção do prazer gratuitamente. Mas para quem tem fé não é assim. É um oferecimento, uma mostra de contrição para se chegar mais perto do céu - o chato é que para humanos tão grosseiros e apegados a tatos, olfatos e paladares, a promessa de um céu assexuado, sem comida e sem prazeres do corpo, gera a incompreensão: melhor assim, fiquemos nós aqui, calmos, com nosso santo jejum. Porque perigoso pode ser a “compreensão” de um céu onde jorram leite, mel e virgens.
 
 
DICA DA SEMANA
 
Couve-flor
Poucos gostam da couve-flor ao natural. Vemos receitas cheias de molhos e cremes que só tratam a couve- flor como condutora e textura. De fato, ela é complicada, o cheiro não é bom e pior, estraga com facilidade. 
 
Para não errar: A cabeça da couve-flor deve ser bem dura. As folhas frescas. As flores devem estar bem compactas, sem manchas e o mais branca possível. 
 
Para o preparo: arranque e descarte a maior parte das folhas, mas pode deixar as menores da parte interna. Pegue cada “arvorezinha” e corte em cruz no fundo. Ponha água para ferver, 4 ou 5 litros. Ferveu, jogue a couve-flor, retornou a fervura, baixe o fogo. Cozinhe em panela destampada até ela se mostrar macia ao ser espetada com um garfo. Escorra imediatamente e tempere ainda quente. 

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