Cães de Pavlov


| Tempo de leitura: 2 min
Com o saco cheio de tanta notícia ruim tomei a decisão de publicar durante um dia inteiro apenas boas notícias no Facebook. Um desafio. Um post por hora durante todo o dia, só com coisas legais. E cumpri, no dia 22 de Janeiro de 2015, uma experiência interessante que provocou algumas reflexões. Primeira: não foi fácil. As notícias boas estão perdidas no meio de desgraças, malfeitos e deslizes. Encontrar algo que realmente vale a pena exige um esforço extra. É muito mais fácil falar do que está errado, das tragédias, incompetências e roubos nossos de cada dia. Segunda: o fiasco dos posts. Poucos comentários, poucos compartilhamentos, poucos “likes”. Um fiasco. Coisa boa não dá audiência. Terceira: a reação das pessoas. Essa foi a que realmente me chocou. Notícias boas são recebidas com ceticismo, com ironia, com desprezo. Basta ler os comentários, especialmente se as notícias envolverem políticos.
 
Com isso, lembrei-me então dos Cães de Pavlov. Ivan Pavlov era um médico russo que fez um experimento interessante cerca de um século atrás. Reuniu alguns cães e começou a condicioná-los. Cada vez que chegava com comida, tocava uma sineta, até um ponto em que, mesmo sem comida, ficavam com a boca cheia d´água só de ouvir o sino. Pavlov desenvolveu a ideia dos reflexos condicionados.
 
Todos temos reflexos condicionados, a maioria deles naturais. Diante da visão de um cachorro rosnando com os dentes à mostra, imediatamente ficamos com os músculos tensos. Estamos condicionados a preparar a fuga ou o enfrentamento diante de uma situação de perigo. Mas também podemos ser intencionalmente treinados a reagir de forma condicionada a determinados estímulos.
 
O que aconteceu com nossa relação com as mídias foi isso então, anos de condicionamento recebendo más notícias, quebrando expectativas, vivendo desilusões nos treinaram para o que somos hoje: uma sociedade desconfiada, cética, que sempre espera o pior. Quase não há mais espaço para o deleite, para curtir uma boa nova, para acreditar que alguém está fazendo algo bom. O otimista, o que acredita, o que confia no bom, no belo, no justo, é um otário.
 
Parece impossível baixar a guarda e simplesmente curtir, saborear a notícia boa e compartilhá-la. Há que se buscar o sofrimento, pintar o pior cenário, dizer que aquela boa notícia não merece crédito. Como Cães de Pavlov, estamos condicionados a babar. Isso sim é que é herança maldita.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários