Sentados no mesmo banco, apertando os capotes contra os murchos peitos, jazem calados, olhando para o nada, sofrendo o futuro que chegara corrosivo e paciente sem pedir licença.
não haviam sequer marcado o encontro. mas ali estavam, quarenta e um anos depois de terem sido donos da cidade, e sem que ninguém mais se lembrasse deles.
esperam o sol, mas ele não rompe as velhas nuvens das frontes chupadas pela boca insaciável do tempo.
a praça não mais lhes pertence. nada mais lhes pertence. contudo o caramanchão de noites tantas varadas a álcool, droga e todas as soluções para o mundo, permanecera intacto, acusando apenas o limo da idade, com os mesmo galhos de parreira retorcidos, com flores envergonhadas da feiura raquítica e outonal em pleno verão atípico.
o barulho das crianças brincando com o espólio da anterior noite carnavalesca na antiga cidade os traz de volta à realidade. mas a realidade é o encontro não marcado, a quantidade de estéreis assuntos e a falta de conexão entre as vidas tão bem definidas e tão distantes.
uma folha de jornal ameaça levantar voo e se arrasta pelo chão. o medo do vazio de todo um tempo sem notícias assombra os corações cansados, preservados na memória de tantas batalhas, todas aposentadas na insensatez dos anos dedicados à emasculada normalidade da vida cotidiana.
os olhos se cruzam, os amigos de tantos anos desencontrados se olham. um deles levanta a cabeça procurando o feixe de sol que tenta romper as nuvens e se filtrar pelos galhos centenários. cerra os olhos por um instante, sorvendo a possibilidade da vida frágil que rompe os obstáculos cotidianos.
curvado, o outro contempla o bico gasto do tênis senil, vagando pelo seu mundo caduco, enquanto o menor sussurra palavras quase inaudíveis: tanto tempo depois, tantas conquistas depois, e o que temos de melhor continua sendo o que tivemos há quarenta e um anos.
uma concordância cúmplice aflora como fátua fagulha nos olhos de tanta experiência vã.
uma criança passa correndo atirando espuminha de carnaval na coleguinha que excitada ri e grita por socorro.
um bocado da espuma pousa sobre a manga do capote protetor. os dois observam a decomposição lenta e irreversível. por fim apenas a mancha efêmera que logo também se dissipará.
um grito de socorro implora para jorrar dos antigos corações. mas seria inútil e eles compreendem. levantam-se e num derradeiro abraço fraterno e longo se unem sem vínculos.
tacitamente prometem nunca mais se encontrar. o longo e silencioso diálogo deixara bem claro que a memória preservada era muito melhor que o decadente presente.
separam-se e tomam rumos opostos.
caminhando em direção à igreja matriz, o maior encara a torre imponente da fortaleza católica e vocifera: “melhor idade é a puta que pariu de quem inventou essa frase”.
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.
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