O missionário sem templo


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O cabeleireiro Sebastião Benedito de Souza, o Sapão, visita as salas do Velório São Vicente todos os dias para rezar para pessoas que morreram. Abaixo, ele mostra sua coleção de sapos de enfeite
O cabeleireiro Sebastião Benedito de Souza, o Sapão, visita as salas do Velório São Vicente todos os dias para rezar para pessoas que morreram. Abaixo, ele mostra sua coleção de sapos de enfeite
Todos os dias, o cabeleireiro Sebastião Benedito de Souza, 50, acorda 4 horas da manhã e, ajoelhado ao lado de sua cama, reza para que os inimigos tenham paciência e o entendam. A primeira oração do dia dura, segundo ele, cerca de trinta minutos. Na meia hora seguinte ele reza para os amigos. “Todos nós temos muitos inimigos, principalmente um missionário sem templo e nem religião como eu”, disse.
 
A missão de Sapão começa logo após suas orações em casa. Sempre vestido com roupas brancas - única cor que usa há 30 anos -, ele leva suas preces para “as almas que sofrem e para as que se despedem desse mundo”. Todos os dias às 7 horas da manhã, ele passa pelos velórios da cidade. “Meu ritual é passar pelos velórios do Leporace, São Judas, São Vicente, Aeroporto e Santo Agostinho”, disse.
 
Ao chegar às cerimônias, ele faz uma explanação bíblica acompanhada de uma pregação fúnebre para os parentes do morto e para a alma do corpo velado. “É um trabalho missionário que faço e que me traz felicidade e me faz sentir útil perante Deus. Tudo começou em 1999 em uma festa”, conta.
 
Sapão fez sua primeira pregação em um sítio indo para São Tomás de Aquino. No local, onde acontecia um aniversário, as pessoas começaram a brigar. Para acalmar a situação, ele chamou todos e começou a rezar. “Porém vi que Deus queria me colocar no campo fúnebre, porque é onde as pessoas mais necessitam ouvir uma palavra de conforto.” Ele começa a pregação lendo um texto bíblico, mas afirma que a maioria das palavras que diz são ideias suas, inspiradas pelo Espírito Santo.
 
Ao adentrar nas salas de velório, Sapão afirma que sua preocupação inicial é com a alma que está sendo velada. Ele acredita que o espírito da pessoa morta ainda está por perto. Ele faz uma prece para essa alma, em silêncio, depois procura pelo parente mais próximo e pede autorização para pregar. “O velório é um presente que Deus me dá.”
 
Sapão afirma que não segue nenhuma religião específica, mas que é bem recebido dentro de todos os credos religiosos. A opção por não pertencer a nenhuma instituição ou crença faz com que ele se sinta mais à vontade ao fazer suas orações e possa frequentar todos locais.
 
Inspiração
Apesar da rotina de visita aos velórios de Franca, Sapão acredita que recebe “chamados”. “Uma vez estava em Jaraguá do Sul e às 7 horas fui acordado pelos bons anjos que me ordenaram que levantasse e saísse. Saí andando a esmo e encontrei um velório, uma alma me esperando”.
 
O missionário ainda faz visitas em outras cidades, como Ibiraci, Claraval, Passos e Restinga. Também prega em praças, empresas e dentro de igrejas. Sapão já pregou até em locais que foram palcos de tragédias. Em 2007, uma jovem de 18 anos morreu nas proximidades do córrego Cubatão em um acidente de carro. Ele parou no local onde havia parentes e populares e fez sua pregação.
 
Tranquilidade
O ambiente fúnebre nunca trouxe medo ou desconforto, diz o missionário. “A morte não existe. É como você fazer uma viagem, embarcar e descer na verdade. Tudo que vivemos nesse mundo é uma mentira e não levamos nada. A morte é a volta para a casa verdadeira”.
 
Apesar das boas intenções, Sapão diz que já foi mal interpretado nas visitas aos velórios e algumas pessoas não permitiram que fizesse a pregação. “Já disseram que desrespeito as religiões porque não sigo nenhuma. A religião é a coisa mais bonita que existe, mas religião não salva ninguém. Acredito numa relação de ação e reação, de realizar obras”, afirmou.
 
Sapão pretende seguir com essa missão até o fim de sua vida. “Meu sonho é voltar para casa. Vai ser um presente de Deus, quando Ele disser que estou pronto e posso ir embora. Eu não temo a morte”.
 
 

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