Leitora deste Comércio perguntou, estarrecida, em comentário enviado ao jornal: ‘sabem o que um tiro de revólver pode fazer no rosto de um bebê de dois meses?’. Imagine aí, você que me lê. Vamos recordar: pai de família, casado, se amasiou com jovem de 22 anos e a engravidou. Tiveram gêmeos. O ‘pai’ ficou doido: ‘que merda. Vou ter que assumir essa aí e os moleques? Não vou!’ A moça apareceu morta em beira de estrada. O ‘pai’ se apresentou à polícia: ‘foi sequestro. Não sei de nada mais’’. A polícia o deteve baseada em vídeo que o flagrou em seu carro com a moça, os bebês e outro homem. Acuado, levou policiais ao local onde estavam os bebês, mortos com tiros no rosto! Ontem, este Comércio noticiou a prisão desse outro homem, o suposto matador.
O livre pensar das pessoas tem sofrido profunda modificação nos últimos tempos. Não mais só o tradicional ‘olhar sobre mais uma tragédia do cotidiano’. Estão, agora, carregados de raiva, insatisfação, contrariedade sobre o tipo de justiça que se processa em cumprimento ao estrito rigor de leis que não são mais temidas, e que podem até condenar, mas não garantem cumprimento integral de penas. O que meu leitor acha que advogados que defenderão o ‘pai’ e o suposto executor, alegarão? Se condenados, cumprirão pena total? Serão soltos rapidamente por ‘bom comportamento’? É a certeza de impunidade que dá base a tragédias como essa? (Vá a gcn.net.br, pesquise ‘Humanidade? Ainda existe?’ e deixe seu ponto de vista...)
JOSÉ BERNARDES DE PÁDUA: Conheço Pádua há décadas. Respeito-o por sua competência — é ginecologista e obstetra referencial — e disponibilidade. Aproximamo-nos no início dos anos 80 quando implantamos o CVV em Franca. Suas consultas nunca foram rápidas. Jamais abriu mão de ouvir o paciente. Sempre declarou que se um profissional de medicina não sabe ouvir, ou não olha no rosto de quem atende, não diagnostica com competência. O escritor Pierre Weil afirma que ‘o corpo fala, e a maioria não percebe’.
Pádua participou ontem do ‘Show da Manhã’, programa da rádio Difusora apresentado excepcionalmente na data, por Edmar Naves. Em certo momento, sensibilizado por dificuldades que pessoas comuns enfrentam na busca por atendimento médico, deu aula de ética e comprometimento com o exercício da Medicina. Ouvi. Resgatei para compartilhar. Tomara que faça eco:
‘Médico tem olho e tem mão. Se não examina o paciente, não diagnostica com adequação. Falta à atual geração de médicos humanizar o atendimento a seus pacientes. Temos que olhar nos olhos de quem nos procura. Praticar medicina com humanidade começa assim que o paciente chega. Tem que ser bem recebido por recepcionistas treinados para tratar bem, com dignidade. Médico não pode atender virado de costas ou de lado, mexendo no computador. Tem que acabar isso de esperar acabar de falar, imprimir receita e dar um ‘até logo’!
Médico tem que respeitar, acolher bem, especialmente os carentes. Profissionais da Medicina, hoje, só se reúnem para festas, não mais para conversar sobre essas coisas simples. Médicos e autoridades só se encontram para inaugurar equipamentos, como se aparelho resolvesse algo sozinho! Tecnologia ajuda, mas é humanidade que resolve. Médico tem que se interessar pelo paciente, dar-lhe atenção integral. Na maioria da vezes paciente vai em busca mais de uma palavra do que de tratamento.
As pessoas precisam exigir ser bem tratadas no serviço público de saúde e nos consultórios! É no atendimento humanizado que começa o efetivo tratamento, mas cura só ocorre se o ser humano que sofre e tem dor for tratado como ser humano, ouvido e entendido! Quem sofre tem que estar em primeiro lugar. Ninguém pode se esquecer que, na maioria das vezes é mais importante uma palavra do que um grande tratamento!’
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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