Guilherme Ferreira Gonçalves Silva tem 14 anos. Até a madrugada do dia 24 de dezembro de 2014, era um jovem cheio de vida: gostava de jogar bola com os amigos na rua, paquerava as meninas do bairro e curtia funk. Queria aprender a tocar violão e se tornar um cantor famoso como o ídolo, MC Gui. Estava à procura de um serviço e fez bicos no final do ano ajudando no trenzinho que diverte as crianças no Centro. A vida e os planos do menino mudaram completamente naquela véspera de Natal.
Hoje, ele está preso em uma cama. Não fala e perdeu os movimentos do corpo. Guilherme ficou em estado vegetativo após ser brutalmente espancado com um cabo de enxada. Apanhou porque teria furtado galinhas. Segundo a família, o menino estaria no lugar errado, na hora errada. Não há prova nenhum contra ele na polícia.
Guilherme mora com o pai, a madrasta e dois irmãos na Vila Imperador. Em dezembro, foi passar uns dias com a mãe, no Jardim Redentor. Viciado em drogas, saiu para catar latinhas para reciclagem, na avenida Dom Pedro, Vila Gosuen. Lá, encontrou dois colegas que estavam com um saco contendo galinhas.
Minutos depois, foram abordados na região do “Puxa Faca” por dois homens em uma moto. Era um autônomo de 47 e seu filho, um borracheiro de 25 anos. Perguntados sobre o que estavam portando, os meninos saíram correndo. Os donos das galinhas passaram a perseguí-los. Segundo o relato dos próprios agressores, encontraram Guilherme com as latinhas e perguntaram sobre a identificação e localização dos outros dois. Guilherme negou o furto e disse que apenas havia encontrado os dois colegas na rua. “Já que você não sabe quem furtou as galinhas, vou buscar um pau e voltarei aqui para dar um coro em você, já que você estava com os outros que eu vi com os sacos de galinha”. A ameaça consta do depoimento dado pelo autônomo, dias depois da agressão e deixa claro que nem mesmo ele tinha certeza se o menino havia participado do furto de suas galinhas.
Pai e filho encontraram um pedaço de pau com cerca de um metro nas proximidades e voltaram com a finalidade de “dar um coro” no menino. Guilherme saiu correndo, mas foi alcançado pelo borracheiro. Jogado no chão, foi golpeado com socos, chutes e pauladas por todo o corpo, em especial na região do abdômen, tórax e cabeça. Segundo relatos do próprio agressor à polícia, foram tantos os socos no rosto que ele nem mesmo conseguiu contar.
Quando notou que Guilherme já estava desmaiado, o borracheiro cessou os golpes e ainda disse: “vai, rouba lá em casa mais seu vagabundo”. Populares se aproximaram, disseram para que pai e filho retirassem “o corpo” daquele local. Eles não obedeceram e foram embora para casa sem prestar socorro ou ligar para a polícia. Os bombeiros foram acionados por outras pessoas e socorreram o rapaz.
Guilherme ficou internado por 34 dias, 17 deles no CTI por causa do quadro sério: traumatismo craniano grave, hemorragia no tórax e infecção generalizada pelo corpo. Ele foi levado para casa no dia 29 de janeiro e não saiu mais da cama. Os agressores não foram punidos e estão livres.
Não há provas que ele tenha furtado
Três dias após o espancamento, os investigadores do 3º DP identificaram a vítima que, em princípio, imaginaram ser um homem mais velho, tamanho o grau de deformação do seu rosto, e também apuraram os autores. Os dois agressores prestaram depoimento e confessaram a surra no “ladrão de galinha” para que não mais voltasse em sua casa. O pai negou que tivesse agredido Guilherme, alegando que quando conseguiu alcançar seu filho (o primeiro a localizar o menino) já encontrou o corpo da vítima estendido no chão sem nenhuma reação. Como não houve flagrante, ambos foram liberados.
Diante da gravidade do caso, o inquérito policial foi transferido para a DIG. O delegado Márcio Murari ainda ouve testemunhas e espera laudos para enviar o processo à Justiça. “Estamos no aguardo do exame de corpo de delito da vítima. A ficha clínica foi encaminhada para o IML. Com o resultado, vou analisar se eles serão indiciados por tentativa de homicídio ou se por lesão corporal de natureza grave ou gravíssima”.
A polícia investiga se pai e filho tiveram ajuda de mais gente. Não há nenhuma prova de que Guilherme furtou as galinhas. “Não temos condições de afirmar se ele participou do furto. Ele segurava apenas latinhas. Mesmo se tivesse participado, não se justificaria esta agressão brutal que ele sofreu e que resultou no estado em que ele está hoje”, disse Murari.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.