São quase cem anos de vida acomodados em um esqueleto franzino, que só há poucos anos começou a sentir o peso que o tempo traz consigo. Ao chegar à casa de dona Maria Isidora Teixeira, a filha logo advertiu: “Prepare-se porque é muita história”. E como tem história.
Com poucas exceções, as passagens e os personagens vão e voltam com mais frequência, mas aos 98 anos é difícil não perceber como a vida foi generosa com Maria, em idade, em memórias e em frutos.
Com 11 filhos, 19 netos, 36 bisnetos e 16 tataranetos, dona Maria agora sente os reflexos de uma cirurgia na perna direita. Na casa em que mora no bairro Cidade Nova, em Franca, na companhia das filhas Maria das Dores, Benedita, do filho Antônio e do neto Éder, apoia-se num andador e reclama por não poder fazer mais nada. Vez ou outra lava sua própria roupa. Mas os bolos e doces que gostava, as mãos já não dão conta do esforço necessário.
Dez anos atrás, o derrame a pegou, mas não derrubou. O médico que trata do seu coração quase centenário a compara a uma aroeira, à árvore cuja madeira é das mais resistentes que se conhece.
Conversar com pessoas como Maria Isidora é prazer para os mais novos que está perdendo muito do sentido pela rapidez com que o mundo caminha. Diante das urgências todas que a modernidade imprime e exige, parar para ouvir gente assim deveria ser um presente. Mesmo que, aos olhos dos outros, não tenham havido grandes conquistas, não sejam tão grandiosas as passagens, existe muita vida naquelas rugas já há muito tempo evidentes.
Nascimento
Nascida em abril de 1917, época de um Brasil exclusivamente agrário, provavelmente não era na região do Garrafão, em Ibiraci (MG), que ela iria saber que o mundo passava por uma guerra que, ao final, em 1918, deixou 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos, segundo os levantamentos mais aceitos. No mês em que nasceu, o Brasil teve seu primeiro navio, o Paraná, torpedeado por um submarino alemão.
Do outro lado do mundo, na Rússia, uma revolução socialista mudaria o perfil geopolítico mundial pelas sete décadas seguintes. Se 50, 60 ou mesmo os 98 anos de dona Maria Isidora são irrelevantes para o estudo da história, eles, pelo contrário, dão bem a dimensão de como era viver até relativamente pouco tempo atrás.
Para os que tinham menos posses, menos instrução formal, era uma vida braçal onde comer e viver dependia do esforço físico de plantar e colher, de alimentar e esperar.
A infância, como era comum naquela época, se passou na zona rural, com espaço de sobra para correr e boneca de pano feita de trapos e retalhos. A mãe, Maria não conheceu; morreu quando ela tinha 2 anos. O pai, Ernesto, foi mais tarde, quando ela tinha 17.
Nesse meio tempo teve a convivência com uma índia arredia que, acredita-se, era moradora da região. Segundo a filha, Maria das Dores, os bisavós paternos eram índios.
Cuidados, de fato, ela e os irmãos foram pelas mãos de uma ex-escrava, que tinha 20 anos quando deixou de ser cativa, beneficiada pela abolição, em 1888. Dona Maria refere-se várias vezes à mulher que ajudou a família, substituindo a mãe.
Moradia
A Fazenda da Mata foi o refúgio, numa ligação tão forte que, um a um, vai lembrando os nomes dos donos da propriedade: Abílio, Juquinha, Horácio Rosa. Outros nomes, da convivência, vão surgindo e Paulinho, Nelson Peixoto, Mário Bianco, dona Mariana chegam para se juntar. “A Fazenda da Mata é aquela descendo a serra para o Garrafão, o senhor sabe?”, pergunta Maria. “Tinha até grupo”, falando da escola do lugar.
A casinha da família, que ficava no canto da serra, tinha de tudo. Café plantado, criação, pomar com laranjeira. Essa era pequena, mas grande mesmo era a casa principal da fazenda, com despensa e salão.
Abrigava fácil as tropas de boiadeiros que passavam por lá, um “mundo de gente”, disse dona Maria, para quem cozinhava.
Foi nessa propriedade que Maria e Francisco se casaram e onde os filhos nasceram. Francisco era o homem de confiança e trabalhou muito para sustentar a família e conseguir comprar a casa que ela ainda mora em Franca, “pagando na hora”.
“Era casada mais de pouco. Meu marido era retireiro, carroceiro. Plantou e cuidou muito daquela fazenda, vendeu verdura e biscoito de polvilho no Estreito”. Francisco morreu subitamente em 1963, aos 57 anos, depois de comprar de uma solteirona a tal casa na Cidade Nova, baixinha, mais ou menos, com muita coisa por fazer.
Dona Maria permaneceu na Fazenda da Mata por mais dois anos depois que o marido morreu. Parte dos filhos, já mocinhos, veio morar em Franca. Ela tinha coisas pendentes no Garrafão. Queria se desfazer dos capados, aqueles porcos grandes, que o marido tinha adquirido. “Meu velho tinha comprado uns capados e ficou tudo lá. Eu mesma matava, sangrava, sapecava e vendia a carne. Engordei muito porco, que vendia para fazer um dinheirinho. Meu filho Ernesto pegava, mas não sangrava. Era eu que fazia”, lembrou, aos risos.
Francisco era jeitoso no trabalho. Ao morrer deixou pomar de laranja, jabuticaba, mangueira. O estaleiro de chuchu era a coisa mais linda e virou uma barraca de tão grande.
Distância
Para imaginar a dificuldade que era vir da zona rural de Ibiraci para o Centro de Franca, dona Maria aparecia uma vez por mês para ver os filhos, quando aproveitava para trazer feijão, arroz, mantimentos.
Quando decidiu mudar de vez para a cidade, a muito contragosto do senhor Horácio, que dava até uma casa maior para ela ficar, Maria trabalhou com o que podia. Lavou e passou roupa para fora, costurou, apanhou café.
Por dois anos a lavoura serviu para ganhar uns “cobres” a mais. O rádio a pilha, que tantas tardes fez a lida parecer menos dura, é o que ilustra a foto desta matéria. “Não era tão duro assim. Tinha saúde, e passava o dia cantando”, disse ela.
Memória absurdamente vívida, sem problemas muito sérios de saúde, seria injusto querer colocar todas as lembranças e saudades de dona Maria Isidora em uma página de jornal.
Com as filhas Benedita e Maria das Dores ao lado o tempo todo, e mais tarde tendo chegado Antônio, terminou a conversa rindo e com uma frase que resume toda a simplicidade: “Tenho saudade do passado. Tudo era bom. Mas a vida não pode parar.”
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