(Des)Prazer de comer como um astronauta


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De vez em quando alguma nova gororoba nos é apresentada como solução prática de alimentação balanceada
De vez em quando alguma nova gororoba nos é apresentada como solução prática de alimentação balanceada
Quando, por volta de 1455, Gutenberg inventou um artifício que possibilitaria a impressão em massa dos manuscritos, os copistas e livreiros se revoltaram. Quando, em 1982, inventaram o CD, os amantes do vinil se indignaram, embora fosse clara a superioridade tecnológica do novo invento. É mais ou menos assim que os conservadores reagem às novas invenções, quer seja por amor a um modelo, quer seja pela sabida dificuldade de adaptação com o novo - ou por saber que toda mudança impõe uma perda. Passei dias pensando sobre invenções e inovações antes de escrever porque tenho uma natural inclinação ao conservadorismo, logo preciso deixar de ser “eu mesma” para tratar de um assunto, penso, tão sério.
 
Não é de hoje que querem nos impor uma alimentação sintética, vira e mexe vem aquela história que mais dia, menos dia, vamos nos alimentar com comida de astronauta. De vez em quando alguma nova gororoba nos é apresentada como solução prática de alimentação balanceada, com trabalho zero na cozinha. Até agora temos mais ou menos resistido. Embora a realidade das grandes capitais seja bem diferente da realidade do interior, me parece que nossas cozinhas ainda se sujam.
 
Pois bem, apareceu agora o Soylent (matéria de capa do Caderno Comida da Folha de S. Paulo). Um pó que reúne ingredientes capazes de nos manter vivos: proteínas, carboidratos e lipídios, que devem ser dissolvidos em óleo e água antes de ser consumido. A dose diária tem 2.000 calorias, em dois litros que devem ser tomados em duas doses de 500ml (almoço e jantar) mais quatro doses de 250ml para cafés da manhã e da tarde.
 
A Folha convidou seu crítico de comida, Josimar Melo, e dois chefs para experimentarem - nossa conterrânea Ana Luiza Trajano foi um deles. O gosto, por todos considerado ruim, melhor, químico, artificial, algo como um shake ruim de baunilha. E a textura é de pó: ele nem se dissolve completamente, tem que desgrudar do céu da boca.
 
Mas isso: gosto, textura, penso, são questões menos importantes e há gosto para tudo. O problema é a substituição da comida de verdade. Todas as vezes que aparece uma solução mágica, tentando driblar a natureza das coisas, nos damos muito mal. Ideias como inserir animais e plantas num ecossistema diferente acaba por trazer desequilíbrios ecológicos que no início não prevemos. Para o bem e para o mal, há um equilíbrio biológico natural no macro e no micro que não entendemos e nem conseguimos imitar. Colocar dentro de nós todos os nutrientes de que precisamos não é o bastante para que tenhamos saúde. O processo de se fazer a própria comida, dentro de casa, comê-la em família e mastigá-la vagarosamente escondem uma magia que nós apenas triscamos. Alimentar-se de comida de verdade alimenta a nós e aos milhões de microorganismos que moram em nós e precisam se manter em harmonia. Só sabemos que assim deu certo até hoje.
 
Pensar numa nova forma de alimentação não é como inventar um CD, para isso teríamos que reinventar também o gênero humano.
 
 
DICA DA SEMANA
 
Milho
 
Não sei quanto a vocês, mas uma boa espiga de milho assada na brasa é uma delícia. Com um pouco de manteiga então, nem se fale. Pois sim. Mas para se ter uma espiga de milho assada sem ficar ressecada ou dura tem um segredinho, nada de colocá-la diretamente na grelha, antes deve-se cozinhá-las por 10 minutos. Lembre-se de não encher a panela, deve-se cozinhar poucas espigas de cada vez, panela grande com três espigas, mais ou menos. Coe bem e seque as espigas com papel toalha, para então colocar na grelha por cerca de 5 minutos, com a grelha já quente, claro. Além da tradicional manteiga, você pode pilar sal grosso com pimenta para espalhar por cima da manteiga. Carne, pra quê?!

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