Encontrou o amigo numa esquina:
-Ei, cara, há quanto tempo! Não mudou nada. Antes do abraço atendeu ao celular:
- Já expliquei. Deixei aí na mesa . . .
Suspirou:
- E você, sujeito, por onde anda?
Voltou ao celular:
- Procure com cuidado. Deixei . . .
Novo suspiro e o ar de alegria:
- Tudo bem, malandro? Nunca mais te vi.
Retornou ao celular:
- Não venha com essa. Eu não perdi.
O amigo à espera do abraço. O celular, preso ao ouvido, importunava:
- Faça outra cópia. Não é mais comigo. Fale com o diretor.
O amigo assoviava baixinho e esperava. Ele se decidiu, empurrandoo celular para dentro do ouvido, a outra mão dando adeus:
- Depois a gente se fala. Tchau.
Foi-se falando alto, gesticulando.
O amigo, assoviando baixinho, viu-o, quase discursando, uma mão presa ao ouvido e a outra fazendo gestos nervosos, dobrar a outra esquina.
E então saiu caminhando lentamente, livre do vendaval eletrônico.
Do livro de contos a sair este ano
Veredas Percorridas
Caio Porfirio, escritor, crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.