No nascimento nos é dada a chance de desbravarmos o mundo.
Primeiro pelo instinto e necessidade, depois por outros motivos, buscamos conexões que nos permitem viver.
A dupla aprendizagem e curiosidade é alavanca para tal descobrimento. Primeiro o choro, a mamada; depois engatinhar, caminhar, correr; escola, amigos e amores; graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado; casamento, filhos, etc. Em boa parte do nosso percurso somos convocados a construir coisas, funções e situações que marcam nossa passagem nessa morada.
A curiosidade nos faz perguntar e a aprendizagem nos faz viver. Assim vamos procurando sentidos para a vida, nos estruturando como pessoa e escrevendo nossa história.
Porém, chega o momento que essa construção não faz mais tanto sentido, que nossas funções (maternidade, trabalho, etc.) já não são tão necessárias e o vazio aparece. Aprender a ser “desnecessário” não é tarefa fácil, já que tudo o que nos “ ancorou” à vida até então estava nessa ordem: necessidade, atividade e construção. O tempo livre que aparece é contraditório, pois ele é longo para não fazer nada e curto para começar alguma coisa. Junta-se a isso a idade “gritando” a passagem do tempo; o corpo dando sinais de que somos finitos e falíveis, e assim agredimos nossa autoestima, apagando nossa capacidade de sermos curiosos e aprendizes.
A vida por si só se encarrega de trazer as perdas; perdas essas de todos os gêneros. Contra isso, não há nada o que fazer. Mas não podemos perder a capacidade de nos encantar com o “novo” mesmo que respaldados pelo “velho”. Querer conhecer lugares, aprender com a tecnologia, buscar outras línguas, exercitar o corpo, sonhar novos horizontes e possibilidades, nos autorizar a outras experiências que não sejam da ordem da necessidade e sim do prazer é o que possibilita levantarmos da cama e cumprir nossa jornada com mais leveza.
Fácil? Não; porém possível. O tempo ocioso sem sonhos ou desafios é torturador. Enquanto há vida, deve haver esperança. Citando Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz; cantar, e cantar, e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. Por que não?
Heloísa Bittar Gimenes, psicóloga
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