“Meu nome é Maria Aparecida da Silva, alcunha ‘Cidona’. Tenho 65 anos, quatro meses e 21 dias. Moro no Jardim Paulista, zona Leste.” Foi dessa maneira que uma das presas durante a operação Tamborim se apresentou ao Comércio. A mulher foge completamente do perfil habitual de um criminoso quando vai para a cadeia. Fala abertamente de seus antecedentes e conta sem cerimônias que já matou dois. Admite numa boa que fuma e vende maconha. Ao final da entrevista, fez pose para a foto e pediu para ver imagem. “Ficou boa.” Cidona só perde o bom humor ao falar do governo federal.
Por que a senhora foi presa?
Simplesmente, porque eu estava com maconha. Eu já tirei uns crimes, tenho passagem, mas eu estava de boa há cinco anos. Entrei com o pedido de aposentadoria quando tinha 60 anos, mas mudaram a lei. Já faz mais de ano que estou mexendo e nada. Aí, eu resolvi vender droga. É só um salário lá dentro de casa, como é que vamos viver? Fiquei revoltada com este PT. Todo mundo vota neste PT, nessa Dilma corrupta.
Já foi presa antes?
Sim. Tive um 157 (roubo) forjado de dois vagabundos, que não devo, 171 (estelionato), 12 (tráfico), 16 (porte). A ficha é boa, né? Tenho um duplo homicídio também.
Como assim?
Matei uma mulher em Ribeirão Preto. Ela estava grávida de quatro meses. Ela ficava na minha cama com meu marido. Fazer o quê? Qual sangue não sobe? Chamei ela e matei. Dei umas cinco facadas nela, só que ela não morreu, não. Morreu depois de um mês. Não tirei cadeia, porque não tinha passagem e não deu flagrante. Ela era muito suja na polícia. O crime foi em 77, 78.
Ficou muito tempo atrás das grades pelos outros crimes?
Ah, fiquei viu. Eu tiro desde 89, faz as contas. Tirei uns 18 anos se juntar tudo. Sou experiente no crime.
Trabalhar que é bom, nada?
Sou muito doente, né, senhor. Vou dar o maior problema lá na cadeia. Tenho tudo o que é doença que você pensar. Tenho artrite, artrose, bexiga caída, tudo o que é desgraceira eu tenho. Só não tenho câncer.
As doenças não impedem a senhora de fumar maconha?
Não. Sabe que eu fico até melhor um pouco? Fico de boa quando eu fumo. Se eu não fumar, arrumo a cozinha xingando, fico brava com todo mundo. Quando eu fumo, fica uma beleza.
Então, a senhora aprova o uso medicinal da maconha?
Esse remédio que saiu da maconha, eu vou usar. É certeza que o meu médico vai passar para mim.
A polícia pegou muita droga com a senhora?
Pegou 49 ‘barangas’. Hoje, eu rodei, mas ontem vendi bastante. Fiz um dinheirinho bom e deu para fazer uma comprinha lá para casa. Paguei uma água e luz que estava atrasado. Não aposento de jeito nenhum. Se eu não aposentar, vou voltar a vender de novo. É por causa dessa desgraça do PT. Vai prender a Dilma, que é uma ladrona. Quando entrou essa presidente, eu fiquei alegre e pensei: ‘Agora, melhora para nós’. Piorou em dobro. Tinha que ganhar o Aécio mesmo. Era o Eduardo Campos, mas ele morreu. Essa corrupta da Petrobras. Ela está no meio. Eles vão afastar essa mulher, você vai ver. São todos corruptos e me prenderam por causa de uma maconhinha.
Fumou maconha hoje?
Nossa! A hora que eles chegou (sic), eu tava chapadinha (sic). Eles me mandaram pôr a mão na cabeça e eu falei: ‘Vixe, nossa’. Demorou um pouquinho, mas a casa caiu. Perdi. Agora, acabaram os amigos, acabou tudo.
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