Na cristaleira ficavam as diversas louças da fazenda. Era um móvel absurdamente lindo. Visíveis através da porta estavam expostos diversos conjuntos de xícaras, uma mais bonita que a outra. Apenas uma xícara ficava no cantinho, separada das demais. Ela tinha a asa quebrada e um pequeno trincado no fundo.
Ao anoitecer cada xícara gabava-se do seu dia. Uma havia servido café e outras chá ou leite. Eram diariamente utilizadas e constantemente elogiadas pelas visitas. Todas tagarelavam animadas, menos é claro a xícara trincada.
Além do desconforto em sentir-se tão esquecida e inútil ainda passava pela chateação que as outras lhe impunham ao contar do calor que sentiam em seu interior ou das cócegas feitas pelas barbas de alguém.
_Como foi que você se quebrou?- questionou uma “xicrinha” de café desavisada, uma novata. Todas as outras fizeram silêncio para escutar a resposta.
_Não sei, não me lembro o que aconteceu. Por favor, deixe-me em paz - respondeu a xícara trincada e depois ficou com a alma encruada, parecia estar ainda mais vazia.
Um dia uma menina espevitada de trancinhas chegou à fazenda para visitar a sua avó. Pediu um chocolate quente, depois correu e pegou justamente a xícara trincada lá do cantinho e depois foi correndo pelas tabuas barulhentas do chão do corredor até a cozinha. Assim que entregou a xícara para sua vovó essa se espantou e disse:
_Marieta, nunca mais pegue essa! – a avó estava séria e um pouco brava.
_Por que não posso vovó?Achei essa a mais bonita de todas – falou com voz doce a educada menina.
_ Sim, ela sem duvida é a mais bonita de todas. Olhe novamente na cristaleira e veja que não existe nenhuma outra como esta. Ela é muito especial, além do mais tem esse trincado e está com a asinha quebrada. Você não viu?
De fato a menina mal tinha reparado no trincado e a asinha não a importava. A avó sentou-se calmamente, bateu a farinha do avental e pegou a pequena neta no colo. Todas as outras louças estavam prestando muita atenção, atentas às palavras da dona da casa. Queriam ouvir a história tim tim por tim tim.
_Marieta, essa xícara foi da minha avó. Ela é a mais velha de todas que estão na cristaleira e por isso a mais importante. Ela está cheia de saudade e às vezes a saudade vaza por esse trincadinho – disse a avó da menina com um sorriso cheio de doçura.
A xícara trincada, apesar de não estar cheia de café ou leite quente, sentiu um calor imenso dentro de si ao ouvir essa conversa. Ela estava entusiasmada pelo resto da história.
_Como ela se quebrou vovó? – perguntou Marieta.
_ Eu era pequena, e assim como você pedi um chocolate quente para a minha avó. Ela tinha apenas um conjuntinho de louças e preparou para mim. Sempre fui tão agitada quanto você e depois de beber eu vim correndo trazer a xícara para lavar. Sem querer eu a deixei cair. Minha avó me deu a xícara de presente e depois de muitos anos quando comprei essa cristaleira, eu mesma escolhi aquele cantinho no fundo para que ela ficasse bem protegida.
Depois de contar a história da xícara trincada, a avó de Marieta colocou a louça em um lugar ainda mais protegido do que antes. Porém agora a xícara voltou para a prateleira de vidro muito mais feliz. Passou a ser extremamente respeitada e querida por todas as outras.
Por: Milla Souza
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