Apareceu neste fim de janeiro o bicho-papão com o qual os brasileiros não queriam se encontrar novamente, mas terão que enfrentar daqui em diante: o aumento de preços. A inflação, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), acusou alta de 1,24%, a maior em 13 anos. Energia elétrica, alimentos e transporte público foram os vilões. Nos últimos 12 meses chegou a 7,14%. A meta era 4,5%.
Para economia emergente como a nossa e, particularmente, para os que se encontram na parte inferior da escala de renda, a inflação é o pior que pode acontecer. Ela subtrai das pessoas de menor poder aquisitivo a possibilidade de desfrutar do conjunto de bens que satisfazem suas necessidades, seus desejos básicos. Quando o Estado não coloca à disposição da sociedade os serviços mínimos que lhe compete oferecer (saúde, educação, segurança) com qualidade e abrangência, a situação se agrava , repercutindo dolorosamente na vida de cada um.
Vivemos, desde a segunda metade do século passado e até 1994, clima de persistente inflação e malfadados planos de estabilização. Nosso descontrole com os preços chegou ao ápice nos anos 80 com congelamentos, confiscos, aplicações de ‘overnight’, trocas de moedas e muitas outras soluções mirabolantes. A situação só foi regularizada, de fato, com o Plano Real, há pouco mais de 20 anos.
Mesmo com a ajuda da primavera da economia mundial até a crise de 2008, não conseguimos ultrapassar os sobressaltos. A economia voltou a patinar. Nos últimos 4 anos, andou para trás. O malogro na sua condução tornou necessário o amargo reajuste ora proposto. O cidadão-contribuinte, penalizado com a escalada da inflação, aumento de impostos e sem receber do Estado o que lhe é devido, poderia ter destino melhor se o governo se dispusesse a fazer sua parte, cortando gastos supérfluos e melhorando seu desempenho.
Vicente P. Oliveira
Economista — FEA/USP
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