Mamãe derreteu


| Tempo de leitura: 2 min
Entrou em casa, mal olhou para o rosto da mãe e isso a deixou muito triste.
 
Bateu a porta do quarto com muita força, tinha dez anos e se comportava grosseiramente.
 
Respondeu sem gentileza a perguntas simples que mal escutou, eram perguntas para saber como tinha sido o dia dele ou se precisava de algo. As roupas sujas estavam sobre a cama, o cobertor ficava jogado no chão e não tratava mais o seu material escolar com carinho. Ultimamente odiava escola, isso era muito ruim e só o fazia ter notas cada vez mais baixas. Amigo também quase não tinha, pois gostava de zombar com a cara de todo mundo e isso fez todos se afastarem.
 
Otávio não era um menino chato, porém comportava-se como tal. Chegou a sua casa e era hora do almoço. Não cumprimentou seus pais na mesa e passou direto por eles. Tirou os sapatos, foi jogar videogame. Falou alguns palavrões no caminho. 
 
A mãe do menino não se acostumava a não existir. Afinal ninguém gosta de ser tratado assim e sentiu passar por ela um vento gelado que congelou o seu coração. Com o coração congelado de tristeza, cada pedacinho dela foi virando gelo também, até que ficou endurecida bem no meio da sala. 
 
Como o menino saía do seu quarto, só notou que algo estava errado quando após gritar pela mãe mais de quatro vezes pedindo-lhe um lanche ela não apareceu. Afinal ela sempre aparecia quando ele gritava. Foi até a sala, estava enfurecido.
 
Ficou apavorado ao encontrar a mãe gelada como um picolé no meio da sala. Como o calor de ultimamente não perdoa nem mesmo mãe, ela já estava derretendo. Enquanto derretia, a mãe de Otavio permanecia inerte e com uma expressão de tristeza. No rosto dela os olhos pareciam que iam chorar, mas congelaram antes.
 
Arrependido e cheio de tristeza, Otávio conversou horas com aquela estatua de gelo. E a abraçou. Mas a mãe gelada não parava de derreter e o molhou inteiro.
 
_ Mamãe derreteu!- acordou aos berros.
 
Ficou surpreso e radiante de felicidade quando viu o rosto da mãe olhando para ele do vão da porta entreaberta. Ela correu ao escutar os gritos do filho que havia adormecido logo após chegar da escola. Então sentou-se na cama e disse:
 
_Calma, Otávio, a mamãe está aqui.  
 
A mãe abraçou o menino com muito amor e ele estava realmente todo molhado porque havia feito xixi na cama. Tudo não tinha passado de um sonho muito ruim.
 
No dia seguinte, ao lembrar que em seu pesadelo a mãe havia congelado por conta de sua indiferença, ele a encheu de beijos. Passou a dizer o quanto a amava sempre que tinha oportunidade. Otávio agora estava atencioso, carinhoso e educado, na intenção de manter o coração da mãe aquecido.
 
O menino ficou acanhado e de tanta vergonha não contou o pesadelo dele para ninguém, apenas para mim. Eu contei para todas as crianças que conheço, pois acho que é necessário e algo muito bom de saber.
 
 
Por: Milla Souza

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários