Sentado sobre o banco de uma praça, na Vila Santa Cruz, um senhor observa à distância o vai e vem de um guindaste, montado sobre a parte mais alta de um edifício residencial em construção na rua Saldanha Marinho, no Bairro São José, região central de Franca. A cena é pouco comum, mesmo para os mais jovens. O imenso guincho, que ora sobe com materiais de construção e ora desce com restos dos mesmos, destoa dos demais elementos da paisagem. No local onde está o atento observador, no entroncamento da avenida Santa Cruz com a rua Ângelo Pedro, até há poucos anos, funcionava como uma espécie de mirante, oferecendo uma visão privilegiada do Centro de Franca. Dali era possível, em determinada época do ano, ver o sol se pondo por detrás da torre da Catedral Nossa Senhora da Conceição. A visão, no entanto, aos poucos, vai sendo ofuscada dentro do chamado processo de verticalização experimentado pela cidade.
Se de longe o guindaste parece se locomover lentamente entorno do prédio, de perto, a impressão é outra. Num ritmo frenético, estruturas de concreto são sobrepostas e paredes são erguidas. Uma “gaiola” leva e traz operários, que, com suas ferramentas - cortadeiras, furadeiras e muitas outras -, deixam o ambiente num tom quase ensurdecedor. Paulatinamente, a obra de 25 andares de apartamentos residenciais, de padrão médio para alto, vai sendo delineada. “Mais um ano e tudo estará pronto”, afirma um dos operários.
E tem sido assim em muitos outros pontos da cidade. Casas com várias décadas são derrubadas na Vila Santa Rita. Terrenos vagos ou ocupados por mato no Jardim Consolação e estruturas que foram construídas, abandonadas e depois derrubadas no Bairro São José, vão dando lugar a prédios, dos mais variados estilos e tamanhos. Segundo dados coletados pela reportagem do Comércio junto à Secretaria Municipal de Planejamento Urbano de Franca no final do ano passado, em menos de dois anos foram lançados 15 prédios na cidade. A maioria deles na região central. Entre as explicações para a aceleração do chamado processo de verticalização, apuradas pelo repórter Marco Felippe junto a empresários do setor imobiliário, está a valorização do metro quadrado e a mudança na economia local, que deixou de ser estritamente industrial diante do avanço do setor de serviços.
Outros fatores seriam o aumento da população e a procura por segurança. A saturação de grandes mercados também explicaria. Cidades do interior com população acima dos 300 mil habitantes teriam se tornado um novo foco das construtoras. Desse modo, a cidade que por quase dois séculos foi se expandindo para os lados, parece buscar uma nova direção. Vai perdendo aos poucos os ares interioranos e ganhando aspecto mais cosmopolita. Quem sabe, o senhor idoso sentado ali sobre o banco da praça, olhando a cidade a partir do mirante, esteja rememorando os tempos em que curtumes que ocupavam o vale do Córrego Cubatão, com suas chaminés exalando fumaça. Ou, por outro lado, esteja a imaginar como será a paisagem da cidade daqui a algumas décadas.
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