Pra que dinheiro?


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Depois do Natal e antes do Ano Novo, lá pelas 4 horas da tarde, fui despertado pelo toque do telefone. Tocou uma, duas, três, quatro vezes e na quinta eu resolvi atendê-lo. Com a voz cavernosa e sem ainda despertar-me do sono, peguei no fone e falei:
 
— Alô!  
 
Do outro lado, uma voz agradável de mulher dizia querer falar com o Sr. José. Sonolento, disse-lhe que naquela casa havia três “Josés” e que ela deveria ser mais específica.  A alegre senhorita declinou com segurança o meu sobrenome e eu me entreguei inteiramente à sua comunicação.  Queria ela oferecer-me  dinheiro  mediante  juros atraentes e compensadores. 
 
Eu que, momentos antes, estava sonhando que havia acertado na mega-sena e que havia sido escolhido para diretor de uma Estatal, sem titubear disse à mocinha do telefone com a voz de um milionário bem sucedido:
 
– Mas, pra que dinheiro, se dele eu não preciso? Já sou  muito rico e dinheiro é o que não me faz falta. 
 
Sempre agradável e sorridente, a mocinha despediu-se deixando o seguinte recado:
 
– Felicito-o pela sua riqueza. Porém, se algum dia o Sr. precisar de mais dinheiro, pode recorrer a nós.
 
Despertei-me do sono, raspei a garganta e antes do Ano Novo tive a confirmação que não havia ganho na mega. Depois do Ano, nenhuma fumacinha, nenhum bochicho, nenhum comentário, nada, absolutamente nada, indicava-me para a diretoria de uma Estatal. Portanto, eu continuava um pobre aposentado cuja grande felicidade estava nos sonhos megalomaníacos.
 
Para piorar, eu não havia sequer anotado o telefone da gentil senhorita.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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