O valor da liberdade


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Cena 1: no calor de São Paulo, pifa o ar condicionado do carro. Na oficina pergunto o tempo para arrumar. A resposta, com imensa má vontade: “Um dia e meio para achar o vazamento. Tem que deixar aí.’ Levo noutro lugar: “Xià deve ser a rebimboca. Tem que arrancar o painel. O carro fica três dias. Só de peça, uns 2,5 mil.” Recarreguei o gás e fui, com o vazamento.
 
Cena 2: procuro serviço de funilaria. Um ogro abriu a porta do carro e bateu no meu pára-lama, fazendo um dente. Rápido exame com jeito cansado: “Sei não. É chapa dupla, dá um trabalhão, tem que deixar aí para verà.’ Tocodente.
 
Cena 3: em Porto Velho, vou palestrar e descubro que minhas exigências técnicas não foram atendidas. Vem o Andrei, responsável pelos equipamentos: ‘Fique calmo que vamos dar um jeito!”. Ele desmonta a estrutura de projeção e ajeita tudo. Fiquei pasmo. Raras vezes encontrei gente com aquela disposição!
 
Cena 4: enquanto o Andrei se desdobrava, chega sujeito da área de TI da prefeitura, mandado para dar assistência. Chega de cara feia, perguntando o que tinha prá fazer. Digo que estamos verificando e ele retruca: “Tem que ver aí, porque meu turno termina em 15 minutos.” Dispensei o sujeito.
 
Quatro situações. Em três, proficionais (sim! “profissionais” são outra coisa) superestimaram para cobrar caro, chutaram prazos e imensa má vontade. O único que buscou solução sem pedir nada foi Andrei, e com baita sorriso no rosto. Alguém me conta que coordena grupo de presidiários com licença para trabalhar de dia e voltar para dormir no presídio. O Andrei é um. Cumpre pena por envolvimento com drogas.
 
Os três proficionais com emprego fixo não estavam nem aí. O presidiário não mediu esforços. Simpático, assumiu responsabilidade e solucionou. O natural não seria o contrário? Mandei um livro a ele. Imaginá-lo lendo numa cela em Porto Velho me causa angústia e uma certeza: só quem perde a liberdade sabe o valor que ela tem.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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