Uma Ana ia pelo caminho, a outra anA vinha.
A Ana que ia estava bem penteada, arrumada das meias até as trancinhas.
Já a anA que vinha era desajeitada e estava bagunçada; uma meia de cada pé e ainda tinha chulé.
A Ana, aquela primeira, cheirava a rosas e era bem educada. Já a segunda anA não levava desaforo para casa e cheirava a manga tirada do pé.
A Ana arrumadinha adorava poesia e livros, colecionava-os na estante. A anA que voltava, sabe-se lá de onde , era craque no vídeogame e estourava bolas de chiclete.
A Ana ia apressada com passos rápidos, cabeça baixa e muito concentrada nos seus pensamentos. A outra anA estava distraída com fones de ouvido, olhos fechados e quase dançava bem no meio da rua.
Uma Ana era bailarina e a outra anA vivia de joelhos esfolados.
Uma Ana tinha cabelos lisos e a outra anA cabelos ondulados.
Uma Ana brincava de casinha sozinha com suas bonecas e a outra anA jogava futebol com os meninos do bairro e falava um punhado de palavrões.
Para onde vão as AnAs?
Isso ninguém sabe bem, talvez uma esteja indo para a casa da avó e a outra voltando da casa da tia, quem sabe indo para aula de balé ou voltando da pista de skates, quem sabe indo para igreja ou quem sabe voltando de lá, para a escola não era, pois nenhuma das duas levava mochilas.
Enquanto uma Ana ia e a outra anA vinha, estavam as duas tão presas dentro de seus mundinhos particulares e pensando nos próprios umbigos que bateram assim bem de frente num tremendo encontrão. Livros no chão, skate também.
_ Ai os meus joelhos – disse a Ana que nunca os havia esfolado.
_Ai os meus cabelos – disse a anA que nunca os tinha penteado.
Foi bem no meio, o caminho que levava uma Ana já estava trazendo a anA também.
Esbarraram e caíram misturadas no chão. Misturaram-se tanto e deram tantas risadas que cada uma saiu para um lado, levando consigo impregnado um bocado da outra.
Por: Milla Souza
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