Freios ABS, ar-condicionado digital, air bags frontais e laterais, câmara de ré, cinto de segurança de três pontos, encosto para a cabeça. Avanços e melhorias que foram esperados e desejados por proprietários de veículos durante anos não fazem o menor sentido para os donos de um Fusca.
O carro tem um interior espartano e conforto é um conceito subjetivo. No anedotário geral, o dono de um Fusca que tiver em mãos um alicate e um arame não fica parado em lugar algum.
Nascido de um pedido do líder nazista Adolf Hitler, o Fusca nasceu da cabeça do projetista Ferdinand Porsche. Deveria, sobretudo, ser um carro barato, refrigerado a ar. O propósito não era usá-lo na Segunda Guerra Mundial, mas fazer dele um carro para a família alemã.
Até aí não há nada de incomum com tantos outros projetos de carros mundialmente famosos e desejados. Mas então o que faz do Fusca um sonho de consumo e um carro adorado por quem é jovem, velho, por quem tem muito dinheiro, por quem vive do salário, de surfistas a advogados?
Não há resposta pronta, mas o fato é que o carro projetado em 1936 já está quase octogenário e ainda exerce um fascínio enorme em pessoas de diferentes gerações.
Para os amantes do carrinho, o Dia Nacional do Fusca, comemorado no Brasil em 20 de janeiro, tem mais importância que o aniversário de muita gente. Antes desse dia, no sábado retrasado, 17, o sol saariano que fazia em Franca não afastou dezenas de pessoas que foram ao Shopping do Calçado onde há exemplares do veículo na Exposição “Pratas da Casa”.
No pátio externo, pelo menos 30 proprietários de Fusca de todas as idades apresentavam orgulhosos suas relíquias. Em sua maioria fazem parte do Volks Club de Franca, fundado dois anos atrás com o objetivo de reunir amantes de carro para, principalmente, falar de Fusca e dos carros que vieram a reboque em seu projeto, entre eles a Brasília, a Variant, o TL, SP1 e SP2 e o Karmann Ghia.
Entre os participantes estava Valdinei Carlos. Seu possante, que era da mulher, já consumiu R$ 15 mil em equipamentos e ele ainda planeja gastar uns R$ 5 mil. O motor é praticamente novo, mas terá sua potência aumentada em breve, e o interior todo modificado.
O Fusca de Valdinei segue um estilo mais esportivo, onde a criatividade e o uso de equipamentos e acessórios é livre. Entre os colecionadores, no entanto, existem os mais puristas, que gastam horrores, mas para fazer o carro voltar a ser o que era quando saiu da fábrica, mesmo que isso tenha sido há 50 ou mais anos atrás.
Um desses é Luís Fernando, conhecido como Caja, e, segundo ele próprio, antigomobilista - nome de quem coleciona carros antigos - e bancário nas horas vagas.
Seu Fusca 74, comprado sete anos atrás, agora ostenta a cobiçada placa preta, que indica que o carro, além de ter no mínimo 30 anos, está com 80% de suas características originais preservadas.
A placa preta é dada pelos clubes federados espalhados pelo Brasil. Após uma vistoria minuciosa, o carro volta para a casa com o ornamento. Voltar para a casa não é expressão casual. Um carro desses não sai da garagem e quando sai é para participar de encontros e exposições.
Mesmo que ande por aí sem equipamentos obrigatórios, como extintor de incêndio, encosto de cabeça, retrovisor do lado direito, o documento, que é reconhecido pela Delegacia de Trânsito e altera o certificado do automóvel, dispensa o seu uso.
Segundo Caja, que tem cinco carros antigos, tudo é analisado para conferir com o original. Acabamento, fiação do motor, lataria, pneus com medidas idênticas, estofados, botões do painel. A placa preta, no final das contas, é um símbolo de status e uma comprovação de que uma relíquia está passando por você.
Como todo proprietário, falar em preço é dar início a uma conversa sem fim. “Não falo em vender e nem coloco preço porque vai que a pessoa paga”, disse ele. “É claro que se for um preço muito atraente, que balance, vou pensar melhor.”
Para o presidente do Volks Club de Franca, Hernandez Queiroz, a dedicação ao carro não tem limite. Que diga o vendedor Tarcísio Mariano, que bateu o seu no dia 25 de dezembro depois de dias planejando uma viagem. As peças para recompor seu Fusca descansam no seu quarto, ao lado da cama. As caixas foram abertas para ver apenas se estava tudo em ordem. Ninguém chega perto, fazendo lembrar a frase do escritor Fernando Veríssimo, em que diz que entre um hobby e uma doença mental não existem muita diferença. Os dois fusqueiros concordam. “Se não fosse meu Fusca não teria viajado, feito as amizades que fiz, curtido o que curti”, disse sobre o carro comprado por R$ 500.
Talvez por ser um universo quase que totalmente masculino, são as mulheres geralmente as que sofrem com tamanha dedicação. Mas ali mesmo, no Shopping do Calçado, presenciamos a rara ocorrência de uma exceção.
Júlia Andrade, 20, acompanhava o namorado Eduardo Pimenta, 22, que em novembro de 2013, quando perguntado pelo pai que carro gostaria de ganhar, não teve dúvidas em indicar o modelo. Estavam os dois com o Fusca 75, branco, comprado quase que todo original. “Ainda vou ter o meu. Quero um conversível. Minha mãe diz que eu só dormia com o barulho do motor de um Fusca”, disse ela.
Para quem desejar conhecer um mais sobre esse universo, o Shopping do Calçado realiza neste domingo o último dia da Exposição “Pratas da Casa”, gratuita.
Cronologia
1936 Produção começa em caráter de teste, na Alemanha, após pedido de Adolf Hitler ao projetista Ferdinand Porsche
1946 10 mil unidades são produzidas
1947 Começa a ser exportado. Primeiro país a receber um Fusca é a Holanda.
1951 Os primeiros 30 Fuscas chegam ao Porto de Santos
1955 A Volkswagen chega a um milhão de Fuscas produzidos
1959 Começa a produção no Brasil
1972 Marca bate a casa de 15 milhões de carros, superando o legendário Ford T como veículo mais vendido no mundo
1986 Produção é interrompida no Brasil, após mais de 3,3 milhões de Fuscas terem sido produzidos
1993 Fábrica da Volks retoma a produção do Fusca, que vai até 1996
2003 Último Fusca sai da linha de montagem em Puebla, no México
2012 O modelo New Beetle passa a se chamar “Fusca”
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