Rayssa era uma pombinha que nasceu em chocadeira de criador de pombas brancas. As aves eram vendidas para mágicos, casamentos e como mensageiras. Essa última função nos tempos de internet era a mais rara.
Vivia conformada e tinha uma vida tranquila. Representava a paz com grande competência e entusiasmo. Até que um dia nasceu sem motivo aparente uma pomba completamente negra e isso gerou discussão. Era fantástica e linda a tal pombinha. Porém, depois de longo debate, ganhou a liberdade em pouquíssimo tempo. Seus criadores acharam que ela não seria facilmente comercializada.
Rayssa então ficou revoltadíssima, sentiu inveja e não queria ficar mais naquele lugar. Passou a detestar as ideias de ternura, amor, paz e fé que representava. A única coisa que parecia valiosa para ela era a liberdade. Deu para bicar as outras amigas que moravam com ela no criadouro. Fazia cara feia e todas as noites sonhava em ser uma pomba negra e voar para longe no alto do céu. Ser livre era um pensamento colado na sua cabecinha.
Era uma manhã destas que já amanhecem com mais de trinta graus, Rayssa foi colocada em uma gaiola dourada e branca de deixar qualquer pessoa encantada. Todos que passavam por ela acariciavam a sua cabeça. E lhe davam algum agrado para comer. Tinha sempre água fresca. Ela diminuiu seus protestos, mas se sentia ansiosa.
Havia sido vendida para ser solta no final de um casamento. E foi exatamente isso que aconteceu. Estava limpinha e tinha delicados enfeites brilhantes em suas perninhas finas. Foi da mão da noiva que ela voou em direção a um lindo céu azul que se coloria com o pôr-do-sol. Cena linda, romântica e perfeita, exatamente como planejada.
A Pombinha Branca voou, fez uma pausa em frente à igreja na praça, comeu pipocas que as crianças jogaram para ela. Depois bateu asas novamente, quando sentiu sede bebeu água na piscina de um condomínio, e depois dormiu nas árvores. Acontece que viveu muito tempo no criadouro, sentiu saudade das amigas a quem tanto maltratara. Os pombos têm disso, no peito levam uma saudade maior que eles mesmos. Com a revoltada passarinha foi exatamente assim, já não era tão revoltada. O olho pequenino dela foi ficando ainda mais redondinho, miudinho, apertado e assim sem querer ela fez um som dolorido de ser ouvido, suspirou.
Quando percebeu estava voando de volta para a casa onde tinha nascido. Eram quilômetros de distância. Estava sofrendo com a decisão tomada, porém era a acertada. É a saudade que nos pombos lhes rouba a liberdade.
Por: Milla Souza
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