Professor incentiva alunos na criação de dicionário


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Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos. Crianças produziram cerca de 500 definições que viraram livro de sucesso
Dicionário de crianças colombianas surpreende adultos. Crianças produziram cerca de 500 definições que viraram livro de sucesso
Um professor colombiano passou dez anos observando frases interessantes ditas por seus alunos. Ele prestava atenção ao que ouvia e ia anotando as frases num caderno, até perceber que tinha material suficiente para um livro. Foi assim que surgiu Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças. Trata-se de um dicionário com verbetes ao mesmo tempo puros, lógicos, lúdicos e reais. Verbete é a palavra com seus sinônimos.
 
As definições são cheias de poesia e sabedoria, apesar da pouca idade de seus autores, torna a leitura muito prazerosa. Em ordem alfabética, elas vão desde A de adulto (“Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro de si”, segundo Andrés Felipe Bedoya, de 8 anos) até V de violência (“A parte ruim da paz”, na definição de Sara Martínez, de 7 anos).
 
O livro se tornou o maior sucesso da  última edição da Feira Internacional do Livro de Bogotá. E surpreendeu pela qualidade e pelo fato de ser uma reedição, pois havia sido publicado há 15 anos. “Isso me faz pensar que o livro continua importante, falando sobre as pequenas coisas”, disse seu autor, Mundo Javier Naranjo, que compilou as definições feita pelas crianças.
 
“Elas têm um lógica diferente, outra maneira de entender o mundo, outra maneira de habitar a realidade e de nos revelar muitas coisas que esquecemos”, diz. Direcionado às crianças, foi bem recebido também pelos adultos.
 
 
133 palavras, 500 definições
As definições – quase 500, para um total de 133 palavras diferentes – foram reunidas durante um período “entre oito e dez anos”, enquanto Naranjo trabalhava como professor em diversas escolas rurais do Estado de Antioquía, no leste da Colômbia.
 
“Na criação de texto fazíamos jogos de palavras, inventávamos histórias. Foi assim que o livro surgiu”, conta ele, que agora é diretor de uma biblioteca numa área rural. O professor diz que teve a ideia de pedir aos alunos uma definição do que era uma criança, em uma comemoração do Dia das Crianças.
 
“Me lembro de uma definição que era: ‘uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir cedo’. Eu adorei, me pareceu perfeita.”
 
“As crianças escolheram algumas palavras e eu também: palavras que me interessavam, sobre as quais eu me perguntava”, afirma Naranjo.
 
No dicionário aparecem temas do cotidiano da Colômbia, como guerra e “desplazado”, palavra que define a pessoa que se desloca pelo país, geralmente fugindo de conflitos. Um dos alunos definiu a palavra criança como “um prejudicado pela violência”
 
 
Aprender a escutar
Para a publicação do livro, Naranjo corrigiu a pontuação e a ortografia das definições escolhidas, mas afirma não ter tirado nenhuma palavra. Por isso, o livro mantém a voz das crianças, com suas formas de explicar as coisas, e construções gramaticais particulares. Bianca Yuli Henao, de 10 anos, define tranquilidade como “por exemplo, quando seu pai diz que vai te bater e depois diz que não vai”.
 
O professor diz que o respeito à voz das crianças também é parte do sucesso do livro, que inspirou obras semelhantes no México e na Venezuela.
 
As vendas do livro ajudaram a financiar as atividades da biblioteca atualmente dirigida por Naranjo, que continua convidando as crianças a deixar a imaginação voar com outras dinâmicas.
 
 
Confira abaixo algumas definições das crianças:
 
Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
 
Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
 
Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
 
Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
 
Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
 
Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
 
Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
 
Guerra: Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
 
Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
 
Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
 
Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
 
Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
 
Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
 
Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
 
Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
 
Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
 
Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

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