Durante a campanha eleitoral, a presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) usou como uma de suas bandeiras o viés social de seu primeiro mandato, bem como o do antecessor. Embora apresentasse números dissociados dos reais, e apontasse conquistas ainda não consolidadas até hoje, como uma melhoria na saúde pública brasileira, Dilma sempre se disse sensibilizada com o sofrimento dos brasileiros mais carentes. E fez de mote de sua campanha os programas sociais dos governos petistas, embora alguns deles, como o Bolsa Família, tivessem sido implantados pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. A maioria das promessas do período eleitoral foram completamente desconsideradas já no primeiro mês do segundo mandato e a postura deste governo que aí está confronta totalmente a propaganda preparada pelo marqueteiro João Santana.
O discurso contraria na íntegra a prática, o que pode ser testemunhado aqui mesmo em nossa cidade. Os francanos, hoje, acompanham sensibilizados os lances da via crucis que o pequeno Davi Miguel enfrenta para sobreviver e ter um desenvolvimento saudável. Ele nasceu com um defeito genético raro e seu intestino não consegue absorver nutrientes. Aos dez meses, depende exclusivamente da alimentação intravenosa. Desde que nasceu permanece internado no Hospital Regional de Franca e tem no transplante de intestino a única alternativa capaz de permitir que tenha uma vida normal. Mas há uma dificuldade: o procedimento só é feito nos Estados Unidos.
Desde junho do ano passado, os pais do garoto, Jesimar e Dineia, lutam para conseguir recursos suficientes para custear a cirurgia e a viagem para o Exterior. Além de promoverem campanhas para arrecadar fundos, ingressaram na Justiça pedindo que o governo pague pelo tratamento. Em outubro, conseguiram liminar favorável na 3ª Vara Federal de Franca, determinando que o governo arque com os gastos da viagem e cirurgia. Mas na semana passada foram informados de uma decisão do Tribunal Regional Federal suspendendo a ordem da justiça francana. O governo recorreu contra a decisão inicial, numa prova de que não pretende custear o tratamento, em torno de R$ 2,2 milhões.
O que afeta aos que têm um mínimo de sensibilidade é a indiferença dessa administração, que se diz voltada para o social, mas não se movimenta para ajudar uma família que não tem condições de tratar o seu filho que sequer completou um ano de idade. Diante dos bilhões desviados dos cofres públicos, especialmente nos escândalos do Mensalão e do Petrolão, R$ 2,2 milhões para salvar a vida de uma criança é quantia irrisória. Só com o dinheiro dos desvios descobertos no escândalo das próteses, vários pacientes, incluindo Davi Miguel, poderiam ter seus procedimentos pagos integralmente. Enquanto integrantes do Congresso Nacional e membros do primeiro escalão do governo podem usufruir de tratamentos no Exterior pagos com o dinheiro do contribuinte, muitas vezes sem necessidade, os pequenos Davis do Brasil continuarão sofrendo, sem o vislumbre de compaixão do governo Dilma. Este, que se indigna com a morte de um traficante de drogas executado na Indonésia, não se sensibiliza com a situação de pequenos brasileiros à espera de tratamento que lhes garanta a vida.
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