Há limite para a liberdade?


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Nos últimos dias, uma ampla discussão a respeito da liberdade de expressão está sendo travada, depois dos ataques contra o semanário satírico francês Charlie Hebdo em Paris que deixou no total 17 mortes (12 no veículo de comunicação e cinco em outra ação), praticado por três fundamentalistas islâmicos (que também foram mortos). Opiniões contra e a favor de que toda opinião não deve ser reprimida surgem a cada dia, envolvendo líderes mundiais, religiosos e pessoas comuns, A maioria defende a liberdade de expressão como princípio fundamental. Mas há os que consideram a necessidade de um ‘filtro’, de parte dos formadores de opinião, evitando as ofensas religiosas, ideológicas, de gênero e de raça.
 
À parte a discussão a respeito do terrorismo calcado no fundamentalismo religioso, que já comentamos aqui recentemente, as declarações do Papa Francisco, líder supremo da Igreja Católica Apostólica Romana, durante visita às Filipinas, coloca mais lenha nesta fogueira. Segundo o Sumo Pontífice, há limites à liberdade de expressão, especialmente quando se insulta ou se ridiculariza a fé de alguém. Francisco defendeu a liberdade de expressão como um direito fundamental e até mesmo como um dever pelo bem comum, mas afirmou que há limites, especialmente quando esse direito se confronta com outro, igualmente fundamental: a liberdade de religião. 
 
E qual é este limite? É necessário que exista? Em redes sociais, há quem culpe os chargistas do Charlie Hebdo pelas próprias mortes. É uma opinião despropositada que não deve nem sem considerada. Mas uma antiga máxima é esclarecedora nesta questão: “a sua liberdade termina quando começa a do seu vizinho”. O respeito à liberdade alheia deve ser princípio fundamental de qualquer formador de opinião, seja ele jornalista, escritor ou cartunista. Em tempos de “politicamente correto”, é necessário que se pratique o bom-senso a todo o momento, evitando-se ofender ou então criar situações embaraçosas a quem quer que seja. Opiniões contrárias sempre existirão e são características da humanidade. Mas tentar impor um ponto de vista com violência não é o melhor caminho.
 
As ofensas, contra a ética, a moral e a fé de cada pessoa tem apenas um caminho para serem resolvidas, buscando-se a reparação: os tribunais. A Justiça, mesmo que lenta, é único caminho para resolver esta e outras pendências. Acenar com a censura por causa dos excessos é uma bobagem. Como bem registrou Voltaire, devemos defender até a morte o direito de expressão, mesmo que não concordemos com o que dizem. O desejo de todos é que esta liberdade não seja calada à base de tiros ou então com a sua supressão. O mundo, hoje, não pode mais assistir, passivo, à escalada do terrorismo em nome de uma fé deturpada. A ponderação é necessária. O bom-senso, primordial. E a defesa da livre expressão de pensamento precisa ser estimulada, para que não mais assistamos os episódios violentos que abalaram Paris e o mundo, há duas semanas. A violência atrai mais violência e só. E não será capaz de trazer paz ao mundo, muito pelo contrário.
 
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