Vida de papel: a dura realidade de quem sobrevive de reciclados


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Irma Oripa Lisboa Cáceres
Irma Oripa Lisboa Cáceres
A pé, carregando um saco de linho sintético numa das mãos, sentado sobre o banco de uma carroça, na cabine de um caminhão ou, inusitadamente, empurrando um carrinho de bebê. Esses são apenas alguns dos meios utilizados para a coleta de material reciclável vistos em Franca. Não obstante ao preconceito de parte da sociedade, que ainda confunde o coletor de material reciclável com catador de lixo, muitas pessoas fazem dessa atividade uma forma digna e honesta de “ganhar a vida”. Ao contrário do que se possa imaginar, existem aqueles que amam o que fazem e não trocariam essa atividade por nenhuma outra. 
 
É o caso de Irma Oripa Lisboa Cáceres, de 65 anos. “Devo tudo o que tenho ao dinheiro que ganhei com a venda de sucata.” A venda de garrafas pet, papelão e latinhas lhe permitiu, entre outras “conquistas”, construir o muro de arrimo da casa que mora hoje, às margens do Córrego Engenho Queimado, na Vila São Sebastião. Aliás, quando começou, há 27 anos, a ideia da reciclagem como forma de poupar o meio ambiente ainda era incipiente.

Veja as imagens:


Bem mais jovem do que dona Irma Cáceres, Hortis José da Silva, 23, compartilha o mesmo sentimento. Filho de um ex-caminhoneiro, falecido há oito meses em decorrência de um câncer, começou a trabalhar com a coleta de materiais recicláveis aos 13 anos. “Meu pai adoeceu e não pode mais viajar. Passou, então, a trabalhar por aqui mesmo juntando sucata e fui ajudá-lo. Gostei desde o primeiro momento disso.”
 
Hoje, Silva viaja a região de Franca fazendo esse trabalho com o caminhão deixado pelo pai. Quando perguntado se gosta do que faz, é enfático: “Sou livre. Não tenho ninguém pra me mandar.” Com sentimento de gratidão, finaliza: “Não me falta nada, graças a Deus!”.
 
Não menos grandioso que o sentimento de gratidão visto em Silva é a generosidade encontrada em Maria Aparecida Pessaláçia, 66. Ela nasceu na roça, na região da Casa Seca, caminho de quem vai de Franca para Ibiraci (MG). Veio para a cidade já casada, sem ter tido a oportunidade de estudar. Quando chegou, foi trabalhar com a costura manual de calçado. Há pouco mais de dez anos, deixou essa área para trabalhar juntando material reciclado. No início, transportava tudo em um saco. Depois, o marido construiu um carrinho para ela trabalhar. Com o novo transporte, ganhou a ajuda da filha, Maria Patrocínio Pessaláçia, 44. Durante quase uma década, as duas andaram pela região do Jardim Ângela Rosa trabalhando. A deficiência da filha e o tamanho do chapéu que usavam, estilo mexicano, fizeram das duas figuras conhecidas nessa parte da cidade. Mesmo imersa em dificuldades, Pessaláçia não perdia um hábito antigo: tratar de cães de rua. Ela mesma preparava a comida, que entre outros ingredientes, “tinha carne, é claro”. 
 
Mas as duas Marias se viram obrigadas a enfrentar mudanças no dia a dia desde o ano passado, quando Maria Aparecida perdeu o marido, vítima de uma parada respiratória depois de um longo processo de adoecimento. Com a partida dele, as coisas se tornaram mais difíceis. 
 
Generosidade também foi o que levou o sobrinho de Maria, Mário Donizete Pessaláçia, 51, a mudar sua rotina de vida para ajudar a tia. O sapateiro aposentado deixou de lado seus afazeres e, ainda quando o tio estava adoecido, fez com que Maria deixasse de lado o carrinho para passar a coletar na caminhonete do marido. Com a morte do tio, a ajuda que era para ser temporária se tornou permanente. Apesar de não entender do assunto, a ajuda de Mário foi fundamental para Maria continuar a luta cotidiana pela sua sobrevivência e a de sua filha. Os três conseguiram organizar as coisas. Fizeram uma rotina, traçaram itinerários e só recolhem naqueles lugares que Mário chama de “ponto”. Com o trabalho organizado, hoje, Maria Patrocínio já não recolhe mais. Mas está ali presente. Quem olha para a boleia da pequena caminhonete enxergará Mário ao volante, Maria no banco do passageiro e, entre os dois, Maria Patrocínio. 
 
Nessa “vida de papel”, impossível não contar a história de Aldo Antônio de Oliveira, 49, e Antônio Carlos dos Santos, 49. Os dois têm muita coisa em comum. Moram na mesma região, na Vila São Sebastião, têm a mesma idade e vendem o que coletam para um mesmo depósito. Aldo leva o material que coleta numa carroça, puxada por um cavalo árabe chamado Moleque. Antônio o faz da forma mais inusitada possível: um carrinho de bebê. Por conta disso, vai e volta ao depósito muitas vezes. “Num único dia dá pra ir a Ribeirão Preto e voltar”, brinca. “Só que tem dia que nem dá pra me alimentar.” E ele parece não exagerar quando disse essa frase. Depois de um dia de trabalho, o ex-chapa, que entrou no ramo por falta de opção, pesa o material coletado e recebe alguns trocados pelo que vendeu. Sai do depósito no Jardim Dermínio empurrando o carrinho e para no bar mais próximo. Ali pede um pastel e, finalmente, pode comer tranquilamente. 
 
Aldo ainda permanece no depósito. Enquanto conversa com a reportagem, diz: “Tudo que estou vestindo encontrei por aí. A camisa, a calça, a botina e até o chapéu.” Com a carroça puxada pelo cavalo Moleque, além de juntar material reciclável, Aldo faz outras coisas. Limpa terreno, tira entulho e faz frete. O homem de sorriso maroto, que deixou de ser pedreiro há 15 anos para entrar nesse ramo, expressa felicidade quando fala do trabalho e de seus sonhos. Separado da mulher, sonha em formar a única filha que tem - hoje com 15 anos -, em medicina veterinária. Mas os sonhos não param por aí. “Sonho ter uma vida estabilizada, um sítio ou, quem sabe, uma fazenda. Para produzir, criar animais.” Depois de pensar um pouco, finaliza: “Substituir a carroça por um caminhão 3x4.” Num país em que se desperdiça tudo: água, comida, dinheiro público e outras coisas que poderiam ser reaproveitadas, depois de três dias convivendo com essas pessoas, é inevitável a conclusão de que elas têm muito mais a nos ensinar do que imaginamos.

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