Em pleno janeiro de recesso parlamentar, a CPI da Assembleia Legislativa pisa fundo na investigação de violações de direitos humanos em universidades paulistas. O quadro revelado é de autêntico terror aos calouros. Não há bombas e tiros, mas há mortes, danos físicos e, principalmente, sequelas morais. Os efeitos dos trotes detonam intimidades e deixam marcas psicológicas entre as vítimas. Durante a semana os deputados colheram depoimentos em sessões de terça a quinta-feira, as quais acrescentaram novos ingredientes às estarrecedoras denúncias de violência nas faculdades.
O mundo inteiro permaneceu em vigília na semana em relação às ameaças terroristas na Europa. A consciência global foi despertada para valores de tolerância, liberdade de expressão e direitos humanos. Não é preciso ir a Paris para marcar posição contra o terror. São Paulo expõe com esta CPI um escândalo que a rigor não é novidade, pois os trotes violentos se repetem a cada ano em diversos câmpus, com maior ou menor grau de violência, e quase sempre sob a conivência de professores e diretores. A diferença é que agora esses acontecimentos estão consolidados em depoimentos. Os deputados esperam concluir os trabalhos até 14 de março. Depois, a vez de agir será do Ministério Público.
José Otávio Costa Auler Júnior, diretor da Faculdade de Medicina da USP, disse aos deputados que 120 milhões de mulheres sofreram abuso sexual em 2014, segundo a ONU. É um problema de “proporções endêmicas”, diz ele. Além disso, pesquisa com 18 mil estudantes nos EUA revela que mais do que 50% dos estudantes consomem álcool e um número perto disso faz uso múltiplo de drogas. “O consumo de álcool é maior entre os universitários do que entre a população em geral. Ficamos estarrecidos e envergonhados”, disse.
Rodolfo Furlan, que vive nos EUA, disse em depoimento via skype que os trotes na USP vão do corte do cabelo e pintura do corpo até a ingestão de vômito alheio, urina na cabeça e ingestão de fezes. Os trotes contam segundo ele com a participação de alunos e de médicos formados. Um dos líderes mais sarcásticos é conhecido por “Pior”, formado em 2014. “Ele era o líder do trote na Universidade”, disse Rodolfo, que acredita que os atos violentos permanecem impunes por conta do espírito de corpo existente entre os médicos.
Trecho de depoimento do estudante Alan de Oliveira, da USP: “A cada dia, um dos calouros passa por esse trote. Você é amarrado numa cadeira para não cair de tanto beber. E vai tomando destilados até passar mal e desmaiar. Isso porque, quando você não aguenta mais, um outro colega faz você beber ainda mais. Em dado momento, mesmo sendo segurado, levantei, tropecei, caí de cara no chão, bati a cabeça e quebrei o dente molar. Me deram um banho porque eu havia vomitado. Ligaram para um sapo (apelido dos veteranos) da Ortopedia. Ele me cutucou, acordei, me deu um mata-leão e me levaram para o Instituto Central. Lá, um cirurgião fez tomografia porque eu estava com um traumatismo cranioencefálico”.
A CPI apurou ainda que nos shows da medicina da USP, calouros são levados para o palco e, por causa dos holofotes, não há como saber quem está na plateia. Todos são instados a ficar nus. Alguns simulam estupro. Nos ensaios, sucedem-se piadas homofóbicas, xenófobas e racistas.
A CPI foi aberta em dezembro após alunas relatarem em audiência da Comissão de Direitos Humanos terem sido estupradas em festas da Faculdade de Medicina da USP. Na teoria, os trotes nesta faculdade estão proibidos desde 1999, quando o estudante Edison Hsueh morreu numa piscina. As denúncias de trotes violentos e humilhantes envolvem faculdades em Sorocaba, Campinas, Piracicaba, S. José do Rio Preto e Botucatu, entre outras.
Wilson Marini
Jornalista - email wmarini@apj.inf.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.