O sapateiro Jesimar Gama, de 44 anos, luta para manter seu filho vivo. Davi Miguel nasceu com um defeito genético raro. Seu intestino não consegue absorver os nutrientes necessários para seu desenvolvimento saudável. Davi depende exclusivamente da alimentação intravenosa. Como o procedimento só pode ser feito em um hospital, desde que nasceu, há dez meses, o bebê está internado no Hospital Regional de Franca. “Quando descobrirmos o problema, os médicos disseram que ele sobreviveria quatro meses. Como é um guerreiro, já chegou aos 10 meses”, conta o pai.
A alimentação intravenosa afeta diretamente o fígado, além de trazer outras complicações. “Ele já venceu oito infecções. Sofre com os catéteres que são necessários. Mas é um menino feliz.”
Para Davi ter uma vida normal, a única esperança é um transplante de intestino. “Sem isso, não há como saber quanto tempo de vida o Davi terá. Ele já superou as expectativas dos médicos. Cada dia é uma vitória”, disse Jesimar.
O procedimento só é feito nos Estados Unidos. Desde junho do ano passado, Jesimar e a mulher Dineia Gama lutam para conseguir recursos suficientes para custear a cirurgia e a viagem para o exterior. Promovem campanhas para arrecadar fundos e ingressaram na Justiça pedindo que o governo pague pelo tratamento.
Em outubro, tiveram a primeira vitória. O juiz da 3ª Vara Federal de Franca, Marcelo Duarte, concedeu uma liminar ordenando que o governo arque com os gastos da viagem e cirurgia. Na última terça-feira, Jesimar e a mulher estavam acertando os últimos detalhes para viajar ainda no final deste mês, quando foram informados de uma decisão do Tribunal Regional Federal suspendendo a ordem do juiz francano. “Foi um baque. Nem sei descrever o que senti”, disse Jesimar.
Agora o sapateiro tenta encontrar forças para continuar lutando. “Nós não vamos desistir. Vamos recorrer e rezar para que o Davi consiga sobreviver o tempo necessário.”.
Na tarde da última quinta-feira, Jesimar esteve na sede do GCN e narrou como têm sido seus dias de luta.
Como vocês descobriram o problema de saúde do Davi Miguel?
Foi logo nos primeiros dias de vida dele. Ele foi um bebê muito esperado. Tentamos por quase 15 anos ter um segundo filho. A chegada do Davi foi muito comemorada. Ele nasceu de parto normal, com 3,2 kg, em uma manhã linda. Era um garotão. Recebeu alta um dia depois. Mas em casa percebemos que ele fazia muito coco. Mal mamava e já tinha que trocar as fraldas. Ele também parecia apático e estava perdendo peso. Dois dias depois, procuramos o médico. Ele disse que era normal um bebê emagrecer depois do parto e pediu que ficássemos atentos. Mas o Davi parecia cada vez menos disposto. Voltamos ao hospital na semana seguinte. Ele tinha perdido muito peso. Estava com 2,3 kg e desidratado. Acabou internado. Os médicos tentaram de tudo aqui em Franca, mas não conseguiam entender o que estava acontecendo. Ele foi, então, transferido para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Lá, passamos 40 dias fazendo exames e mais exames. Até que veio o diagnóstico do problema no intestino.
E como foi saber que seu filho poderia morrer?
Foi, com certeza, o dia mais triste da minha vida. Mesmo com todos os transtornos, ainda tinha a esperança de que não fosse nada grave. Esperança de que ele logo estivesse em casa. Ouvir os médicos dizerem para aproveitar o tempo ao lado do Davi porque ele não iria sobreviver foi como se o chão se abrisse, comecei a chorar... (começa a chorar). Estávamos no hospital. Todos os dias, pela manhã, temos uma reunião com os médicos em que eles nos passam informações sobre o estado de saúde do Davi. Foi em uma reunião dessas que recebemos a notícia. Eu e a minha mulher nos abraçamos e ficamos assim. Não sei dizer o que passou pela minha cabeça. Foi só desespero.
Quando vocês souberam da possibilidade do transplante de intestino?
Estávamos muito tristes. Os familiares também. Os médicos tinham dito que o Davi só sobreviveria quatro meses. Ninguém queria acreditar. Nesta mesma época, ganhou a mídia a história da Sofia (Sofia Gonçalves de Lacerda, uma menina, à época com cinco meses, conseguiu na Justiça R$ 2,2 milhões do governo para custear um transplante multiviceral, também nos EUA). Um sobrinho entrou em contato com os familiares da menina por meio das redes sociais e eles nos passaram todas as informações, inclusive o contato com o advogado Miguel Navarro, que os ajudou. Ingressamos na Justiça e começamos as campanhas para conseguir recursos para o tratamento.
Em outubro, vocês conseguiram a primeira vitória: uma liminar ordenando à União que faça o custeio da operação e da viagem. O que representou para vocês essa decisão?
Comemoramos. Comemoramos muito. Na liminar, o juiz dava um prazo de 15 dias para o governo resolver tudo. Apesar de toda euforia, sabia que, no fundo, esse prazo não seria respeitado. Uma viagem como esta não é fácil. É preciso avião com UTI especial e um monte de documentos. Sabia que levaria mais tempo, mas foi um alívio. Meu filho finalmente poderia ser tratado. Parecia que tudo ia dar certo, que tudo estava a nosso favor.
Na última terça-feira, uma reviravolta na Justiça cancelou o sonho da viagem...
(Respira fundo, tenta controlar a voz) É... (chora). Estávamos nos preparando para viajar ainda neste mês. O representante do Governo Federal já tinha entrado em contato com a companhia aérea para solicitar a UTI para o Davi. Já assinei o contrato com o hospital (Hospital Jackson Memorial Medical, localizado em Miami) que fará a cirurgia. O governo já depositou US$ 120 mil na conta do hospital americano para os primeiros procedimentos. Enfim, estava tudo certo. Mas na terça-feira, estava trabalhando quando recebi um telefonema da nossa advogada. No celular, ela pediu que fosse até o escritório e não quis adiantar o assunto. Na hora, senti um frio na barriga. Sabia que não podia ser coisa boa, porque sempre que é uma boa notícia, ela já conta logo. Passei no hospital, peguei minha mulher e fomos. No escritório, ela nos explicou sobre a decisão do Tribunal em São Paulo e disse que a viagem teria de ser adiada. Foi um baque. Uma mistura de raiva, decepção e medo. Não sei definir o que senti. Só conseguia pensar que se tratava da vida do Davi Miguel. Na decisão, o Tribunal diz que pagar a viagem pode ser um precedente que afetará a economia e as contas do governo. E aí me pergunto: e a vida do meu filho? R$ 2 milhões da viagem podem afetar as contas do governo? E os milhões que são desviados? É um absurdo. É muito revoltante. Mas nós não vamos desistir. Não vamos. Vamos recorrer e ir até o fim. Só peço a Deus que o Davi seja forte o suficiente para esperar. Conversei com ele (embarga a voz), contei o que está acontecendo e pedi para ele aguentar mais um pouco. Ele é forte, vai sobreviver, tenho certeza.
O senhor, então, acredita que a decisão de suspender a viagem será revista?
Se a Justiça não mudar isso, será uma sentença de morte para o meu filho. Dizem que no Brasil não há sentença de morte, mas uma decisão como esta é isso que representa para o Davi Miguel. Ele é um guerreiro. Todos os dias, luta para continuar vivo. Ele é só um bebê e já passou por oito infecções. Tem o corpo todo picado por conta dos catéteres que precisam ser colocados para que ele possa se alimentar. Já perdi a conta dos exames que ele precisou enfrentar. Não é justo que ele não tenha a chance de ter uma vida normal. Não é justo que a Justiça não permita a ele ter um futuro. Eu ainda acredito que vamos vencer. Eu acredito que vou ver meu filho crescer (chora).
Como está o Davi Miguel hoje?
Ele continua internado. Está com dez meses (completou no último dia 12). Está pesando pouco mais de 5 kg e estável. Mas os médicos dizem que não podem dar garantias. O estado de saúde dele é muito delicado. Um dia para o Davi é sempre uma vitória. Mas ele não tem sequelas. É um menino feliz, sorri, reconhece a gente e, agora, já chora quando vê que estamos indo embora. Tenho fé de que ele vai conseguir vencer.
Como estão as campanhas de apoio ao Davi?
Continuamos com a nossa página na internet chamada ‘Movidos pela vida - Davi Miguel’. Com todas as nossas ações e o apoio dos francanos e até de gente de outras cidades, conseguimos até o momento R$ 280 mil, que estão em uma conta especial. Com esse valor, não conseguimos viajar nem custear o tratamento. Precisamos de muito mais. Temos que conseguir reverter a decisão judicial. Mas quero deixar aqui o meu agradecimento a todos que nos apoiam. E quando me refiro a apoio não falo apenas em dinheiro. Também recebemos muitas mensagens, abraços e carinho. Só posso agradecer por todo esse amor que vem de quem a gente nem conhece. Isso me emociona demais.
Para o senhor, o que é mais difícil nesta luta da sua família pela vida do Davi?
Vencer o medo. Meu maior medo é que o Davi não aguente. Ele ainda é um bebê. Está em uma cama de hospital. Posso acordar amanhã e ele não estar mais lá. Isso me apavora. Isso me tira o sono. Mas tenho muita fé. Não posso desanimar. Não tenho esse direito. Meu filho está em um hospital há dez meses e continua lutando, como posso abandoná-lo? Isso nunca. Farei tudo o que puder para que ele sobreviva.
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