Em meio a criações de galinhas e um misto de cozinha com quarto, a doméstica Nadir Marcelino, 69, mora há um ano e meio às margens da rodovia Nestor Ferreira, na entrada de Restinga, em um barraco de lona. Lá, ocupa com firmeza o cargo de coordenadora interna do acampamento Irmã Dorothy, ligado ao MST (Movimento Sem Terra) e aguarda o dia em que poderá conquistar um espaço de terra para chamar de seu.
O desejo de ter um pedaço de chão é o que motiva a permanência de 25 famílias da região de Franca a viver acampadas no local, em barracos de lona e sem infraestrutura de água, esgoto e energia, em uma área de terra próxima a entrada da cidade.
Segundo Nadir, a área pertence à Prefeitura e o grupo ganhou o direito de uso enquanto aguarda a liberação de terras para a criação de um novo assentamento. “Não é uma ocupação e, sim, uma área de recuo, onde ficamos à espera da liberação de terras. A Prefeitura tem ciência da nossa presença e nos ajuda no que precisamos. Ela fornece a água e faz o transporte das nossas cestas.”
Alinhados um ao lado do outro, os barracos foram erguidos sobre chão batido com lonas plásticas e restos de papelões e outros materiais recicláveis, não oferecem conforto. Neles há apenas o mínimo de objetos, como cama, armário e fogão, além de algumas cadeiras improvisadas. Alguns contam com veículos e outros já apresentam pequenas plantações ao fundo, como no caso do barraco do catador de sucatas Francisco Paulo, 60. Ele mora com a mulher, o filho e uma neta, e planta mandioca e feijão. “Sempre tentei comprar um pedaço de terra, trabalhando como servente, e não consegui. Essa vontade sempre permaneceu, até que resolvi vir com a família para cá”, disse ele.
Com o mesmo ensejo de conquistar uma área para plantar, o pedreiro aposentado Antônio Gonçalves Lopes também deixou sua casa em Franca e se mudou para o acampamento. Atualmente, ele faz parte do Núcleo de Infraestrutura e adverte que, para viver como acampado e lutar por uma pequena área de terra, é necessário gostar de roça e querer trabalhar com ela.
“Quem quer terra permanece nela e precisa saber esperar. Do contrário, a pessoa desiste”, afirmou Nadir, que controla a entrada e saída de famílias do acampamento. “Hoje, somos em torno de 60 pessoas e umas oito crianças, mas já fomos mais. É que aqui todo mundo é livre, tem permissão para sair, trabalhar fora e pode ter sua casa e seu carro, só não pode ter terra, caso contrário, perde o sentido da luta.”
Segundo Nadir, o acampamento é reconhecido pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e as famílias cadastradas podem ser encaminhadas para um assentamento a qualquer momento, mas não há um prazo para isso acontecer.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.