Alguns dias atrás, exatamente em 8 de janeiro, a Prefeitura de Franca usou sua página em uma rede social na internet para conclamar as pessoas a saírem de casa e a aproveitarem as férias com os amigos, ao ar livre, praticando exercícios físicos. A postagem gerou comentários, em sua maioria criticando a administração por, entre outras coisas, manter fechados no final do ano o Complexo Poliesportivo e o Parque “Fernando Costa”.
O convite e a sugestão da Prefeitura fariam algum sentido se a cidade oferecesse, de fato, e principalmente na periferia, locais apropriados para a prática esportiva, ainda que ela se resumisse a uma simples caminhada no final da tarde. A exceção dos dois locais citados, mantidos com relativos zelo e organização, quase nenhuma outra praça ou parque em Franca oferece as mínimas condições de serem frequentados.
A reportagem do Comércio percorreu vários pontos, esporadicamente, e a radiografia que se pode fazer neste momento desses bens públicos é a pior possível. Mato alto e depredação são regras em todos os lugares. O que está à espera de quem resolver atender ao pedido da Prefeitura de Franca são praças sem encanamento de água, brinquedos para crianças quebrados e com pregos à mostra, falta de iluminação, arborização ou projeto paisagístico, desmazelo e insegurança.
A pior situação, de longe, foi encontrada no Parque dos Trabalhadores. Inaugurado em 2006, no Parque dos Pinhais, o local está completamente abandonado pela administração. Mais ou menos cuidado e limpo está apenas o entorno da Secretaria de Segurança e Cidadania, que funciona lá dentro.
É difícil encontrar quem o frequente. Sem árvores na área que deveria servir aos frequentadores, é um ambiente inóspito. A piscina de areia, logo na entrada, que abriga brinquedos infantis, é constantemente encontrada com pedaços de paus e pedras. Mas é nos fundos do Parque dos Trabalhadores que a situação está muito pior.
O que deveria ser vestiário está servindo para depósito de móveis quebrados e materiais da administração que não têm mais uso. Não há nenhum quiosque inteiro, seja com o telhado quebrado - um deles está completamente destelhado - ou com os bancos e mesas depredados.
Fiações elétricas foram arrancadas. A noção mais clara de que ninguém da Prefeitura passa por ali há semanas ou meses são as dezenas de folhas dos coqueiros caídas no chão já secas.
Nas duas quadras a céu aberto, as tabelas de basquete são apenas armações de ferro e mais nada. É difícil, mesmo que tudo estivesse em plena ordem, que alguém pudesse praticar algum esporte. O chão é de cimento áspero. As linhas já sumiram.
Calçada e bancos estão escondidos atrás de um mato com mais de 1,5 metro de altura. No Parque dos Trabalhadores, não há o menor sinal de que aquilo é um bem público, mantido com o dinheiro do contribuinte de Franca.
Santa Terezinha
O Centro Esportivo do Jardim Santa Terezinha repete o quadro visto no Parque dos Trabalhadores. Administrado pela Feac (Fundação Municipal de Esportes, Arte e Cultura), está entregue às moscas.
Inexplicavelmente, é mantido no local um funcionário como vigia, mas nenhuma atividade é realizada ali, onde moradores podiam até alguns meses atrás praticar judô e onde a piscina, agora desativada, recebia crianças para aulas de natação, interrompidas quatro anos atrás, quando alguns frequentadores sofreram acidentes com os ladrilhos soltos por falta de manutenção.
Já no início da conversa, o funcionário disse que o “chefe” tinha dado ordens para que ninguém tirasse fotos da piscina no centro esportivo. Um portão nos fundos, no entanto, dá entrada livre para quem quiser ver como o local, que abriga dois campos de futebol e uma improvável pista de corrida, está. Ele não disse quem emitiu a proibição.
Com muro caindo, alambrado quase todo danificado e muito mato, é o que restou para os moradores do Santa Terezinha como forma de lazer.
A situação contrasta com a Praça da Juventude, no Jardim Redentor, mais bem cuidada, com quadra coberta e equipamentos novos. Inaugurada em meados do ano passado, sofreu com vandalismo no início, mas a situação foi contornada com a presença de seguranças.
Jardim Dermínio
Embora a situação e a aparência da praça no Jardim Dermínio, que leva o nome do ex-governador carioca Carlos Lacerda, não sejam das piores, a população do bairro não tem muito do que se orgulhar.
Há no local uma pista para prática de ciclismo com muitos desníveis, que não serve para qualquer praticante, principalmente crianças e pessoas mais velhas. Se o aspecto não é de total abandono, está longe de merecer o título de bem cuidada.
O mato é grande em alguns locais, a grama esparsa não cobre a praça de maneira uniforme. Em resumo, o local é feio, mas está muito melhor que a praça de outro bairro, o Jardim Paulistano.
É de se imaginar que um parque infantil merecesse atenção para que os equipamentos não servissem de ameaças ou risco à integridade das crianças. Mas é exatamente o que está acontecendo, com brinquedos faltando pedaços, pregos, balanços precariamente amarrados, sem contar os que são apenas armação, sem assentos.
O matagal está tomando tudo, embora no dia em que a reportagem esteve no local, havia indícios de que havia sido parcialmente cortado.
Segundo três adolescentes, que aproveitavam o começo da tarde para se divertir com uma bola de futebol americano, o tempo de permanência nunca é superior a uma hora. “Não tem uma torneira por aqui, não tem onde beber água”, disse um deles. “A gente fica aqui, vai para a casa, bebe e volta”, concluiu.
Com iluminação precária, ao contrário de quando foi inaugurada, sete anos atrás, a Praça do Jardim Paulistano não apenas é insegura para quem quiser passar por ela à noite, mas é outro exemplo de como esses espaços estão sendo tratados na cidade.
Contraponto
Ao contrário dos moradores dos bairros mais afastados, aqueles que podem frequentar o “Fernando Costa” e o Póli não têm muito do que reclamar. São os pontos de convergência para quem gosta de correr, caminhar, praticar esportes ou parar para uma leitura ou levar crianças para brincar. Estão bem cuidados, com placas de orientação e oferecem coisas simples, como bebedouros aos visitantes, algo que é negado para quem procura outros locais na cidade.
A reportagem procurou a Prefeitura para comentar o assunto. Em e-mail enviado à assessoria de imprensa, o Comércio questionou o motivo do abandono do Parque dos Trabalhadores, se há algum levantamento sobre os custos do que está danificado no local, quanto a administração investiu na conservação de praças e parques em 2014 e quanto pretende investir neste ano, e se há alguma pressão por parte de setores sociais que levam a gestão a investir apenas no Póli e “Fernando Costa”.
A resposta veio em uma mensagem lacônica e vaga, que não respondeu a nenhuma das sete perguntas enviadas. “Nos próximos dias, a Prefeitura irá apresentar um pacote com dezenas de novas obras esportivas e de lazer, além de um balanço das obras nesta área já em andamento”, informou a assessoria.
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