O pé-de-galinha


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Laurinha não entendia o desespero da mãe que andava para lá, para cá e parava em frente ao espelho colocando as mãos no rosto e o esticando todo. Depois disso a mãe de Laurinha chorava compulsivamente e dizia: - Malditos “pés-de-galinha” ! – E voltava a chorar.
 
O que os pés das galinhas tinham que faziam a mãe dela chorar tanto? 
 
Adormecia e acordava com essa indagação na cabeça. Um dia, uma tia chegou panfletando e parecia trazer alegria porta adentro. No papel alguma coisa prometia acabar de vez com os “pés-de-galinha”; dançaram de alegria e realizaram uma série de telefonemas. À tarde tomaram as três um café e comeram bolo.
 
Laurinha ficou agitada; o que seria das galinhas sem os pés, por que a mãe estava tão feliz em acabar com os pés das galinhas?
 
A menina andava para lá e para cá exatamente como a sua mãe. Parou em frente ao espelho do quarto e viu um pequeno frasco onde tinha uma etiqueta em que se lia: creme para pés-de-galinha. Sem pensar duas vezes apanhou. o potinho e foi ao quintal. Morava em uma chácara. 
 
Entrou no galinheiro, correu atrás das galinhas e não pegou nenhuma. Caiu com o rosto no chão, derrubou todo o creme caríssimo da mãe e esfolou os joelhos. Por fim, entrou em casa chorando e dizendo: - Malditos os pés-de- galinha! – E voltou a chorar.
 
Vendo a fuzarca aprontada pela filha, a mãe esbaforida entrou na sala e quis logo saber o motivo de tanto choro e desconsolo. Apressou-se com os curativos e enquanto lavava com sabão as pernas machucadas, a mãe indagava à menina:
 
-Filha, o que queria com as galinhas?- Disse a mãe 
 
-Passar o creme das galinhas nos pés delas e entender o motivo que isso te faz sofrer tanto, mamãe. 
 
Foi um dialogo um tanto confuso. Laurinha choramingava mais do que falava e quando finalmente a mãe entendeu o motivo do alarde na criança caiu em gargalhadas incontroláveis. Só depois explicou para a menina que os tais “pés-de -galinha”, aos quais ela se referia, eram aquelas ruguinhas finas no contorno dos olhos.
 
Laurinha passou os pequenos dedos macios e brancos sobre as rugas, beijou levemente as pálpebras dos olhos chorosos da mãe, deitou no colo quentinho e ela dormiu sem entender o motivo do choro da mãe; aqueles pezinhos-de-galinha eram lindos demais.
 
A mãe adormeceu como adormecem as mães, sempre um pouco acordada.
 
Por: Milla Souza

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