Contra o terror no campus


| Tempo de leitura: 3 min
No último domingo, Paris se transformou na “capital do mundo” com a manifestação que marcou posição contra o terrorismo, a intolerância e a ameaça às liberdades, bem como a defesa dos atributos da democracia e da civilização de uma forma mais ampla. Em São Paulo, neste mês de janeiro, de forma quase silenciosa, um grupo de deputados está colhendo depoimentos estarrecedores por meio da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investiga as violações dos direitos humanos nas universidades públicas do Estado, especialmente em cursos de medicina. Para quem acompanha os bastidores do meio universitário, a maioria dos fatos aparentemente não surpreende. A novidade é que agora esses acontecimentos estão consolidados em depoimentos e as autoridades, bem como as direções das faculdades e reitorias, têm a obrigação de agir sobre os fatos e evidências de ameaças à integridade física, psíquica e moral de estudantes, uma espécie de terrorismo do campus. Esta coluna vai poupar o leitor da reprodução da maioria dos crimes e abusos  cometidos por alunos com a condescendência de professores e dirigentes das escolas, mas os detalhes podem ser encontrados nas atas das reuniões da CPI que estão sendo publicadas quase diariamente no site da Assembleia Legislativa.
 
O sociólogo Antonio Ribeiro Almeida Jr., professor da Esalq de Piracicaba, qualifica o trote como um ritual de passagem usado no passado para acolher e igualar pessoas a um determinado grupo e que foi “totalmente deturpado” por veteranos das universidades paulistas, que, a pretexto de aplicar as brincadeiras, “impõem superioridade com sadismo e malevolência”. Ribeiro realiza pesquisa sobre esse assunto desde 2002 e classifica duas categorias de ocorrências: a primeira, em que o trote ocorre de maneira eventual, ou seja, um aluno humilha e provoca o outro, ocasionando situações graves em que pessoas ficam feridas ou humilhadas; e a segunda, em que o trote se torna recorrente, violento e faz parte da cultura da instituição, envolvendo docentes, alunos e funcionários. Ribeiro chama a este último tipo de “instituição trotista”. Para entrar em grupos desta instituição, as pessoas têm de ser testadas, humilhadas e violentadas e obedecer à lei do silêncio para que possa continuar como integrante da comunidade. 
 
Luiz Fernando Alves, o estudante que denunciou abusos sofridos por calouros no trote da Faculdade de Medicina de S. José do Rio Preto, disse à CPI que há conivência entre diretores, professores e funcionários da universidade na realização de trotes humilhantes. Segundo ele, a postura dos dirigentes acaba por perpetuar a cultura da violência e humilhação nos trotes universitários. “Eles são os maiores responsáveis, pois o aluno que apanha esse ano será o que vai bater no ano seguinte. Se a direção não toma nenhuma atitude, essa situação não vai mudar nunca”. 
 
A CPI colheu também depoimentos de vítimas de estupro de 2004 e 2011 em festas promovidas pela Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP. “O sonho de entrar nessa faculdade acabou se transformando em pesadelo”, relata nota da Assembleia logo após o encontro. Os depoimentos foram dados a uma audiência restrita no auditório Teotônio Vilela, em que se pediu sigilo dos nomes de depoentes e acusados a fim de não prejudicar ação do Ministério Público. Uma das testemunhas guardou segredo sobre a violência sexual até 2013, quando resolveu contar ao marido, pois “acordava chorando”. Ao saber das audiências públicas, sentiu alívio. “Soube que o que aconteceu não foi só comigo; é verdadeiro”. 
 
Na USP em São Paulo está sendo articulada a realização de um evento para coibir o trote violento tradicionalmente praticado contra os calouros. Será dia 24 de fevereiro no anfiteatro da Faculdade de Medicina. 
 
Wilson Marini
Jornalista - email wmarini@apj.inf.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários