Crônica para ‘Charlie’


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O atentado ao Charlie Hebdo, que terminou com 12 mortos, entre eles cinco cartunistas franceses de grande expressão, fez com que aquele clima de ano novo, esperança, se apagasse. Para mim é impossível imaginar que alguém possa perder a vida por manifestar sua opinião, por mais imbecil, ofensiva, preconceituosa ou violenta que seja. 
 
Quando a opinião é calada por violência física, econômica, psicológica, deixamos de viver o estado de direito para experimentar a ditadura mais forte, mais violenta. Recolhi-me a meus livros. Num, encontrei imagem que, para mim, serve como a ‘Crônica à ‘Charlie Hebdo’. É a imagem de pintura que está no Museu Nacional de Varsóvia, na Polônia, trabalho do pintor polonês Jan Matejkoa quando tinha apenas 24 anos de idade — 1862 —, retratando Stanczyk, o bobo da corte polonesa no auge do poder cultural, econômico e político do país. 
 
Além da fama como bobo da corte, ele era respeitado por sua eloquência, inteligência e perspicácia. Diferente dos bobos da corte de outros países, era mais que palhaço. Era o sábio que usava sátira, ironia e humor para comentar o passado, o presente e futuro. Era o único súdito a quem era permitido gozar o rei.
 
O que a imagem (veja em http://biblioklept.org/2012/12/31/stanczyk-during-a-ball-at-the-court-of-queen-jan-matejko/) tem de especial? O título é “Stanczyk durante baile na corte da rainha Bona, diante da perda de Smolensk”. Está sombrio, triste e pensativo enquanto a festa acontece em outra sala. Sobre a mesa, carta com a data 1514 e o nome Smolensk, uma das maiores cidades da união Lituânia/Polônia. O texto dava conta da tomada da cidade por Vasily III da Rússia. O palhaço, o bobo, o gozador é o único, enquanto a corte baila, a perceber a gravidade do que acontecia. Feliz ano novo.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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