Je ne suis pas ‘Charlie’!


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Milhões foram às ruas da França protestar contra ataque terrorista ao jornal Charlie Hedbo, tentando demonstrar que o atentado contra a liberdade de imprensa se deu contra todos nós. De fato, nada justifica violência contra a livre expressão do pensamento, especialmente charges. O problema é que, por detrás de qualquer ideologia há discurso com finalidade bem definida, e o efeito depende de quem toma conhecimento.
 
Sou defensor da liberdade de imprensa. É instrumento de garantia da democracia. A imprensa é indispensável, mas, tem que ter responsabilidade, principalmente quando o fato narrado atinge direitos inerentes à pessoa. Para mim, charges se assemelham a obras de arte. Um cartunista é capaz de reproduzir situações complexas com poucos traços, e o alcance é imediato. É aí que, penso, devemos refletir sem medo. Até que ponto pode-se zombar, vilipendiar determinado valores — religiosos a exemplo — dentre tantos? Charge — publicada pelo periódico em novembro de 2012 — reproduz a ‘Santíssima Trindade’, valor cristão, em ato sexual. ‘Deus-Pai’ é encochado por ‘Jesus-Filho’ e o Espírito Santo representado pelo ‘olho que tudo vê-triângulo”, está enfiado no ânus do Filho. Provocação à relação homossexual, permite interpretações várias, mas uma, a da zombaria à crença religiosa e o desrespeito a quem comunga, pode causar reação irrefletida. (Está, dentre outras capas, em http://www.pragmatismopolitico .com.br/2015/01/charges-mais-polemicas-da-charlie-hebdo.html). Um trecho de carta de Joseph Goebbels (ministro da propaganda nazista) ao maestro Wilhelm Furtwängler, regente da Orquestra Filarmônia de Berlim confirma: ‘Não basta que a arte seja excelente, é preciso também que se apresente como expressão do povo. Somente arte que extraia inspiração do próprio povo pode, afinal, ser considerada excelente, e significar algo para o povo a que se dirige’. Por essas razões, ‘Je ne suis pas Charlie!’, ‘eu não sou Charlie!’, mesmo repudiando o ato terrorista. Algumas de suas charges não me representam. 
 
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
 

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