Seca: cenário caótico marca região de ranchos em Ibiraci. Veja como está


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Após recuo do rio, pesqueiro em rancho do “Garrafão”, próximo a Ibiraci, ficou exposto  e bem distante da água. À esq., Homem corta grama na área que ficou exposta
Após recuo do rio, pesqueiro em rancho do “Garrafão”, próximo a Ibiraci, ficou exposto e bem distante da água. À esq., Homem corta grama na área que ficou exposta
Quem via o dia bonito que fez na última sexta-feira na região de Ibiraci (MG), com céu limpo, de intenso azul e um sol de queimar logo nas primeiras horas da manhã podia até comemorar o verão, mas para praticamente todos os donos de ranchos e pousadas do local o quadro só atenuava ainda mais a angústia com que todos vêm vivendo nos últimos meses.
O rebaixamento do lago da Usina Mascarenhas de Moraes, administrado por Furnas, iniciado ainda no primeiro semestre do ano passado, e que em 7 de dezembro chegou a 10,58 metros, expôs a população fixa e flutuante de várias cidades próximas à divisa entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, banhadas pelo Rio Grande, a uma realidade cuja solução passa por rezas, boatos, alterações no clima e decisões tomadas bem longe dali, por autoridades do Operador Nacional do Sistema (ONS), em Brasília. 
 
Veja as imagens:

A lenta e gradual diminuição do espelho de água do reservatório da usina acabou com a razão de ser de centenas de propriedades no entorno do lago formado há mais de seis décadas, tendo elas finalidade comercial ou não. 
 
Entre conversas de boteco e a completa falta de informações para os moradores, é recorrente a informação de que Furnas daria início a um processo de reflorestamento dos vazios deixados pela baixa da água, o que a empresa negou.
 
A expectativa de que os ranchos se transformem em chácaras pode ser frustrada por novo enchimento do lago, cujo volume, diz a empresa, espera-se que volte ao normal (leia mais ao lado). Enquanto isso não acontece, vários cenários vão sendo desenhados nas conversas entre vizinhos. Os que dão conta de que a represa só subirá mais sete metros e outros falando de que o reservatório dificilmente voltará a ser o que era são os mais comentados. 
 
Não foi a primeira vez que a reportagem do Comércio esteve no local desde que o nível da represa começou a diminuir. Contudo, a cada visita novas histórias surgem e a má impressão deixada pelo recuo da água se reforça mais.
 
Desta vez, nas regiões conhecidas como Garrafão e Mandaguari, em Ibiraci, a margem da represa está tão longe que alguns ranchos não recebem seus donos ou visitantes há mais de quatro meses, segundo apurou a reportagem junto a caseiros que trabalham por ali.
 
No Garrafão, onde o enchimento do lago formou braços que se espalham como pequenos fiordes, a água chegou a recuar mais de um quilômetro de algumas propriedades. Pontos de apoio para pescaria, onde bastaria se sentar para molhar os pés no início de 2014, hoje estão há quatro metros do chão seco, incrivelmente tomado pelo mato.
 
Testemunha
O caseiro Divânio - não informou o sobrenome - trabalha há 23 anos no local, para diversos ranchos. Desde 1994, quando o reservatório recuou por alguns metros, ele não se lembra de nada parecido com a situação atual.
 
Há algumas semanas, com a incidência maior de chuvas, a água de Mascarenhas de Moraes que chega ao Garrafão até chegou, segundo ele, a subir alguns metros, mas nos últimos dias, com nova estiagem, a água tornou a recuar.
 
Ao apontar para vários ranchos, cujo aspecto é de abandono, o funcionário disse que até as cisternas das propriedades estão secas. Segundo ele, alguns, cujos donos cogitaram vender, não tiveram interessados em comprá-los. “Aqui a gente ouve falar sobre essa história de que vão plantas árvores ou de que a água só volta mais sete metros de altura, mas ninguém sabe se isso é verdade”, comentou, olhando para propriedades que, por enquanto, ainda oferecem trabalho a ele.
 
Em outro rancho, o aposentado Sebastião Aparecido, 76, passa os dias olhando para a grota que se formou na frente do rancho comprado pelo filho há 12 anos. O que até poucos meses atrás era uma imensidão de água, onde bastava se sentar em um banquinho a poucos metros da casa construída na propriedade, esticar uma vara e pescar, hoje é um vale coberto por mato onde um pequeno córrego resiste. 
 
O vão revelado pelo desaparecimento da represa naquele ponto tem pelo menos uns 300 metros de largura entre suas margens, hoje sem um pingo de água sequer. Quando se pergunta qual é o ponto mais próximo da propriedade onde a água chega atualmente, Aparecido aponta para longe, numa distância seguramente próxima a um quilômetro de onde está.
 
Como o esvaziamento da represa não levou apenas a água que servia para diversão, mas também a que abastecia a casa, a família do aposentado teve que mandar perfurar um poço semiartesiano, que custou R$ 6 mil, segundo ele. “A gente ouve falar que vai subir de novo, e até acho que em alguns dias a água já subiu realmente. Mas aqui o prejuízo foi de todos os lados. Acabaram os peixes, acabou tudo”, disse.
 
Desilusão 
Diferente de quem apenas eventualmente passa pela região, o farmacêutico aposentado Paulo Falleiros, 90, há 50 anos tem um rancho no Mandaguari e há pelo menos 14 escolheu o local para morar com a mulher, Darci, 86.
 
Ex-prefeito e vereador de Ibiraci na década de 1970, Paulinho, como é conhecido, possui uma propriedade que naturalmente já sofre com a escassez de chuvas, mas que nunca teve formado à frente dela um cânion de oito metros de altura, surgido após o desaparecimento do braço da represa.
 
Nas últimas cinco décadas em que passou no local, trata-se da primeira vez que vê a represa chegar a um nível tão crítico. “Aqui estamos esquecidos. Poder público ou Furnas nunca deram uma única informação sobre o que está acontecendo”, afirmou o aposentado. “Eu, honestamente, acredito que nunca mais teremos aqui o volume de água de antes. Os que até então viviam do turismo estão liquidados. É uma lástima.”
 
Dessa maneira, o que enquanto para alguns é mera presunção, para o comerciante José Benassi é prejuízo consumado. Dono da Venda do Garrafão, um pequeno mercadinho que atende rancheiros e visitantes nos momentos de aperto, montado há sete anos, Benassi disse que seu faturamento diminuiu perto de 40% nos últimos seis meses. “Posso afirmar que o movimento caiu quase que pela metade. Muitos ainda vêm passear aqui, mas sem água não têm o que fazer mais. Assim como todo mundo, espero que a represa volta ao normal.”

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