A sessão extraordinária realizada pelos vereadores na quinta-feira à noite para tirar o advogado José Antônio Lomônaco do cargo de confiança de diretor-geral da Câmara Municipal foi o final melancólico de uma invenção do então presidente Jépy Pereira (PSDB), que se mostrava fadada ao fracasso antes mesmo de começar. O Poder Legislativo fez vistas grossas e teve a imagem desgastada de graça por demorar a tomar providências. Com a exceção da cria e do criador, ninguém mais acreditava que poderia dar certo. Deu no que deu.
Preenchido por indicação política, o cargo de diretor geral havia sido extinto em 2008 por causa das disputas internas que provocava. A função foi ressuscitada por Jépy no começo do ano passado. Alvo de uma enxurrada de processos e de relação conturbada com os servidores, ele apostou em um “diretor” para evitar o contato direto e tentar controlar os funcionários rebeldes. Difícil encontrar na história política da cidade “estratégia” que tenha dado tão errado.
Antes mesmo do cargo ser criado, Jépy já havia escolhido o ocupante: Jerônimo Sérgio Pinto, que disse não, obrigado. O presidente teve que correr atrás de outro pretendente. Ninguém quis assumir o “abacaxi”. Eis que ele teve a brilhante ideia de convidar um fiel aliado de décadas e nomeou Lomônaco. “Ele aceitou pela amizade que tem comigo”, admitiu, na oportunidade.
Se a intenção do vereador era irritar os servidores, conseguiu. Meses antes, Lomônaco havia ingressado com ação popular contra as advogadas Taysa Mara e Maria Fernanda. Ele questionava a alteração na jornada de trabalho e nos salários delas.
O advogado assumiu o cargo dia 16 de abril. Conhecido por se apresentar como “professor doutor”, Lomônaco ganhou notoriedade por se envolver em uma série de polêmicas e denúncias de assédio moral na Câmara: cortou o café dos servidores, tentou viajar com o carro oficial sem motorista, quis impedir assessores, funcionários e vereadores de acessarem redes sociais. Em junho, pediu ao presidente que abrisse procedimento administrativo disciplinar contra o servidor José Carlos Granzotti por ele ignorar suas saudações matinais. “Ele se recusa, dentre outras manifestações de desapreço, a retornar meus cumprimentos até mesmo de bom dia”, escreveu.
Em maio, baixou norma “convidando” os servidores a jogarem o lixo no lixo. “Só hoje, dia 27/05, recolhi dois comprovantes de ponto que estão jogados no chão, tornando insuportável a situação”. Antes de completar dois meses no cargo, foi alvo de duas representações na Comissão de Corregedoria da Câmara, uma dos servidores e outra do sindicado da categoria, que pediram sua exoneração por abuso de poder, desvio de finalidade e assédio moral.
Na primeira semana de junho, Lomônaco colocou o cargo à disposição. “Não existe clima para ele na Câmara faz tempo”, afirmou, no dia, o vereador Adérmis Marini (PSDB). O ex-diretor Waldir Paludeto foi procurado para substituí-lo, mas não aceitou. Jépy decidiu insistir com o “amigo” no cargo.
Marco Garcia (PPS) assumiu a presidência no dia 1º de janeiro. Sua primeira medida foi exonerar Lomônaco. Veio a surpresa, inesperada até para os padrões da Câmara: Lômonaco simplesmente se recusou a deixar o cargo de confiança e recorreu à Justiça alegando que a decisão deveria ser submetida ao plenário. Conseguiu uma liminar. Quinta-feira, os vereadores se reuniram e decidiram mandar o diretor embora por 11 votos a um. Só Jépy ficou ao lado do “professor doutor”. A advogada Taysa Mara Thomazini do Nascimento, uma das procuradoras da Câmara, deve ocupar o posto em seu lugar.
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