Sem enxergar, ciclista francana quer Olimpíadas de 2016


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Silvana Chimionato e o marido Fernando José pedalam juntos por rua de Franca, ao lado, ela com suas medalhas
Silvana Chimionato e o marido Fernando José pedalam juntos por rua de Franca, ao lado, ela com suas medalhas
Medalhas e troféus de campeonatos regionais de ciclismo e duas medalhas de uma competição nacional foram conquistados pela francana Silvana Chimionato, 44. Mas entre os prêmios colecionados, a maior conquista da atleta tem sido andar de bicicleta tendo apenas 3% da visão. Com um dos olhos, ela não enxerga mais. Há dois anos Silvana compete como paraciclista em provas por todo o País. Ela usa uma bicicleta de dois lugares chamada Tandem e que é conduzida por um guia e ela. Em 2012 a francana começou a perder a visão gradativamente por causa de uma doença degenerativa chamada coroidose miópica. “Sentia dores de cabeça, desmaiava e era como se eu tivesse ‘apagões’. Achava que era algum problema neurológico, mas era na visão”, disse Silvana. Quando a doença foi descoberta, já estava em um estágio avançado. Ainda não existe tratamento para o problema. 
 
Silvana é representante comercial na área de calçados ao lado de seu marido, mas já praticava ciclismo amador cerca de seis anos antes de perder a visão. 
 
Depois de superar as dificuldades de viver sem enxergar, Silvana se vê às voltas de outro desafio: conquistar uma vaga nas Paraolimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Ela intensificou as horas de treino para poder se preparar para as disputas. Neste ano, ela irá participar de quatro campeonatos nacionais em Belo Horizonte, Brasília, Aracaju e São Paulo. “Se conseguir até o 3º lugar nessas competições, poderei participar das Paraolimpíadas de 2016. O sonho é esse, vamos tentar”, disse.
 
Ela teve que se adaptar, aprender a usar a bengala para deficientes visuais e a fazer tarefas diárias sem ter a visão. “Não foi fácil, ou deitava e desistia ou procurava alguma coisa que gostava para fazer”, disse.
 
Bike dupla
A paixão pelo ciclismo está marcada no estilo de Silvana. Seja pelo brinco com um pingente de bicicleta que ela usa, seja pela tatuagem que fez na panturrilha com o desenho de dois ciclistas em uma bicicleta dupla, como a que usa. O seu marido, Fernando José Chimionato, 43, aliás, também fez a mesma tatuagem. Embaixo do desenho foi grafada a frase “share the love”, que traduzida, significa “compartilhe o amor”.
 
Fernando é parceiro na vida e no esporte. Ele conduz a bicicleta durante os treinos para as competições. Além dele, aos finais de semana, Silvana treina com a ciclista Maira Nogueira Murakami, 26. Ela é a guia da paratleta durante as competições, pois nos campeonatos, somente pessoas do mesmo sexo são permitidas nas bicicletas.
 
Para Fernando, andar com sua mulher é uma forma de reforçar os laços entre o casal. “O esporte aproxima mais a gente e, para o deficiente visual, a inclusão esportiva é um grande benefício porque envolve conquistas”, disse ele.
 
“Meu marido e a Maira - treinadora - são meus anjos, ela faz esse trabalho comigo voluntariamente. E é algo que envolve uma entrega e relação de confiança grande porque você tem que confiar na pessoa que está guiando. Para fazer uma curva, desviar de um buraco, tem que ter uma sincronia entre os dois.”
 
Segundo ela, andar na Tandem é bem mais difícil que em uma bicicleta convencional. Uma bicicleta de competição pesa 20 quilos, o dobro de uma normal. O alto custo dos equipamentos é uma outra dificuldade. Um modelo importado, com as adaptações de freios e rodas para competir, fica em torno de R$ 12 mil, estima Silvana.
 
Treinos
Os treinos são dirigidos pela OCE, empresa de assessoria esportiva de Belo Horizonte que monitora o tempo e forma como são desenvolvidos. Além disso, Silvana faz exercícios físicos em uma academia. Ela também tem patrocínio de uma empresa francana do ramo do ciclismo.
 
Silvana treina cinco vezes por semana com seu marido, percorrendo cerca de 300 quilômetros de bicicleta pela rodovia Cândido Portinari, estradas para Patrocínio Paulista e Ribeirão Corrente.
 
Nos finais de semana, ela treina com a guia Maira, em Batatais. A atleta já era velocista. Silvana a conheceu por meio de amigos.
 
As ciclistas realizam provas de estrada, que são provas de resistência e as chamadas disputas “contra o relógio”. “Todas são competições de velocidade, ganha quem chegar primeiro. Em uma descida, a bicicleta pode chegar até 90 km/h. No plano a velocidade média é de 30 km/h”, disse Silvana.
 
Já a prova de resistência envolve um percurso com quilometragem maior. Na última competição - Copa Brasil de Paraciclismo, em Rio das Ostras (RJ), Silvana e sua guia andaram 57 quilômetros. Ela participou das duas modalidades e levou uma medalha de prata e uma de bronze.
 
Para a ciclista Maira, ser guia de Silvana foi um desafio novo. “Sempre tive curiosidade de saber como seria atuar como guia de uma deficiente visual. É gratificante e a imagem que tenho dela é de força, garra, insistência e que ‘limites’ devem ser superados”, disse.
 
Ela se diz surpresa com os resultados obtidos na Copa Brasil em 2014, pois tinham pouca experiência. “Nosso maior objetivo agora é conseguir vaga nas Olimpíadas.”

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