Nós, brasileiros, comemos (e bebemos) demais nas festas de fim de ano. Em muitas famílias, a minha incluída, parece até que o mundo vai acabar, que o ano só vai renascer na canção conhecida que entoamos enquanto os fogos espocam. E apesar de o churrasco estar subvertendo o perfil das ceias tradicionais, o pernil e a leitoa, nos redutos mineiros e paulistas; o bacalhau entre os cariocas; o carneiro onde quer que exista uma família árabe; e o peru, especialmente no Natal, ainda marcam presença forte. A gente exagera, porque não são apenas as carnes que nos atiçam paladar. Com elas chegam à mesa os acompanhamentos- farofas doce e salgada, purês de frutas frescas, fios de ovos e cerejas ao marasquino, arroz com lentilhas ou castanhas, e muito frequentemente o tutu de feijão para fazer par com as carnes suínas.
Ganhamos peso, sentimos que necessitamos entrar numa dieta mais leve. Para complicar, em nosso país as temperaturas sobem em janeiro, o que significa calorzão danado. Então, nada melhor que as saladas que possam substituir uma refeição inteira, como esta que o leitor vê na foto. Ela está num daqueles livros que comprei no Eataly de Nova York, em novembro. Fica bem colorida, graças ao tom marfim do atum combinado com o branco dos feijões, o vermelho do pimentão, o roxinho da cebola, o verde da alface. Em tempo. O que será que anda acontecendo com o nosso povo que está trocando o gênero desta verdura de presença diária em nossa mesa? Pois tenho ouvido tanta gente, até mesmo alfabetizada, falando “o” alface. Que fenômeno será esse? Que nos explique, por favor, mestre Everton de Paula.
Voltando à nossa salada, ela vale por refeição completa porque reúne vitaminas, sais minerais e a proteína do atum, peixe que vem ganhando importância cada vez maior entre culinaristas, gastrônomos, chefs. Uma presença importante e destacada pelos nutricionistas é o ômega-3 do atum. Sob este nome definem-se os ácidos gordos que oferecem proteção substancial ao organismo humano. Só para citar alguns dos benefícios, ele atua contra a degeneração macular, principal causa de cegueira em pessoas com mais de 50 anos; contra vários tipos de tumores; contra perda da capacidade cognitiva que caracteriza o Alzheimer; contra o mau humor e o estresse. Dizem ainda que é benéfico para os que sofrem de diabetes tipo 2, pois melhora a capacidade do organismo de responder à insulina. E, maravilha, junto com o ômega-3, o selênio contido no atum é elemento essencial para a produção de uma substância chamada “glutationa peroxidase”, antioxidante fundamental para um fígado saudável. E o fígado, já sabemos mesmo os mais leigos, é o órgão responsável por desintoxicar e livrar o corpo de compostos nocivos. Como o álcool, ingerido sem muito controle das vésperas do Natal ao pós- Réveillon.
Não é à toa que os japoneses alcançam excelentes índices de longevidade nos ranking que se divulgam com frequência. E que os tumores malignos que atingem os ocidentais não os vitimam com idêntica incidência ou da mesma forma. Comem muito peixe, e especialmente atum. Na semana passada a mídia mostrou ao mundo um tradicional leilão que acontece em Tóquio, onde são disputadas toneladas de lotes de atum. Cerca de 450 tipos foram leiloados, semana passada no Osaka Fukyu Center, entre 120 participantes, todos ligados ao setor de alimentação. Ir a este mercado, um dos três maiores do mundo, é, segundo renomado analista da sociedade japonesa, “enxergar um pouco melhor as relações culturais que surgem a partir do comércio, é compreender um pouco mais a história dos gostos gastronômicos e ver como essas relações, a partir da comida e do comércio, acabam por identificar toda aquela sociedade, e de uma certa maneira afetam o resto do mundo, pois o mercado oferece produtos, e atum, não só para o Japão, mas para o resto do
mundo.”
O atum em lata que compramos nos supermercados brasileiros vem em grande parte do Japão. Ele não perde suas qualidades nutritivas nem seu sabor ao ser industrializado. Basta retirar da lata e empregar conforme indicações da receita. Para nossa salada, use o sólido em lugar do desfiado. Escorra bem o óleo antes de adicioná-lo aos outros ingredientes. A cebola roxa, que tem um gostinho especial, uma cor maravilhosa e singulariza os pratos onde entra, especialmente se crua. O pimentão, cuja película externa você precisa retirar para que não fique indigesto; para tal, espete-o na ponta de um garfo e gire-o sobre a chama até que a película se solte, esfregue depois de frio debaixo de um jato de água para concluir o processo. Os feijões brancos, que precisam ficar de molho por uma noite, antes de serem cozidos por meia hora, ou até que se tornem macios mas não desmanchados. Escorra os feijões em peneira, tempere com sal e pimenta-do-reino, coloque-os numa travessa ou no prato de servir. Ao lado disponha folhas de alface bem lavadas e secas com papel toalha para que não transfiram água aos outros ingredientes. No meio ajeite os pedaços de atum. Enfeite com as rodelas de cebola e as tirinhas de pimentão. Regue com generoso fio de azeite extra-virgem. E então sirva para refrescar o dia e purificar o organismo. É um prato ultra saudável e muito gostoso.
INGREDIENTES
200 gramas de feijão branco
2 latas de atum sólido
1 cebola roxa média
½ pimentão vermelho
Folhas de alface crespa
Sal
Pimenta-do-reino
Azeite extra-virgem
porção: 4 pessoas
dificuldade: fácil
preço: econômico
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