Cozinha é lugar de...


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Atividades comuns a mulheres ‘antigas’ vão se perdendo e nem mesmo os grandes chefs o sabem
Atividades comuns a mulheres ‘antigas’ vão se perdendo e nem mesmo os grandes chefs o sabem
Tenho ouvido e lido tanta besteira de um novo tipo de feminista que mal dá para acreditar no que nos tornamos: a vítima agonizante do próprio veneno. São tantas as vitórias femininas em tão pouco tempo que é de causar espanto, a igualdade total é apenas questão de um átimo de tempo - falo do nosso mundo, claro. Mas o que elas - algumas novas feministas - parecem querer é mudar a natureza das coisas, inclusive calar opiniões contrárias, instalar uma ditadura do feminino - sinceramente: Deus me livre! Qualquer homem ou mulher tem o direito de dizer exatamente aquilo que pensa, para os excessos existe um órgão apto: o judiciário.
 
Citam, dentre outras, Simone de Beauvoir para alicerçar disparates, só que, de novo, nota-se o que se percebe em todo fundamentalista: falta de conhecimento. Simone foi profunda observadora das relações homem/mulher e são dela as mais belas e pacíficas palavras sobre essa delicada relação, ela jamais pregou a guerra, como querem fazer supor.
 
Quanto a natureza das coisas, sou profunda admiradora das diferenças que enriquecem o micro e o macro. Tenho horror a massificação, a pasteurização, a globalização cultural. Amo minhas qualidades de mulher e até alguns defeitinhos. O que exatamente nasceu comigo e o que foi imposto pela cultura ninguém sabe delimitar, mas, como busco a paz e não a felicidade, não quero nem saber de onde vem o meu conforto ao preparar um jantar para minha família: a cozinha continua sendo minha, mesmo após o dia de trabalho. 
 
Carlos Alberto Dória inovou no seu livro ao tratar, sem medo, do jeito feminino de cozinhar, partiu em busca das diferenças de gênero quando o assunto é cozinha: “mulher na cozinha” é uma categoria diferente de “homem na cozinha”. O saber culinário, o conjunto dos gestos e a maneira como o corpo feminino se relaciona com os outros, com a natureza e também com a cozinha é uma fonte rica que, segundo Claude Lévi-Strauss, tem mais significados que uma jazida arqueológica. 
 
Observe-se numa aldeia indígena como homens e mulheres descascam mandioca. Os homens normalmente o fazem de pé, as mulheres as descascam sentadas como se apontassem um lápis e jamais se descuidam das crianças para que não se machuquem com as facas que vão e vem.
 
Vai longe o tempo em que a emancipação feminina precisou negar a cozinha. Não parece inteligente solapar o saber nem a vida doméstica sob o pretexto da repressão. Boa parte das mulheres faz a transferência do conhecimento culinário pela oralidade, do convívio familiar, imitação. Aquele toque, aquele segredo só se aprende vendo. Atividades comuns a maioria das mulheres “antigas” vão se perdendo e nem mesmo os grandes chefs sabem como, por exemplo, matar a galinha, depená-la e sapecá-la no fogo - talvez nem o chef Alex Atala o faça com a competência de nossas avós.
 
 
DICA DA SEMANA
 
Sobremesa
 
Minha dica pode parecer mera invencionice, mas não é. Desde os primórdios da gastronomia já se utilizavam esses dois recursos. Engraçado que li as duas num livro muito antigo de gastronomia, depois vejo a mesma dica no meu mais novo livro de comida. Então, pimba! Deve estar na moda.
 
Pois bem, qualquer torta ou compota de frutas pode ser coberta com pedaços de caramelo e fiapos de algodão doce. A combinação dos dois açucares produzem uma surpresa lúdica. Faça a cal de açúcar dourada, espalhe-a numa forma que caiba no freezer e resfrie-a completamente. Arranque-
a da forma e coloque-a sob o papel manteiga e passe um rolo por cima, para quebrá-la bem. Se quiser uma farofa, vá afinando. Quanto ao algodão doce, é só desfiá-lo e colocá-lo por cima.

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