Cultura bandida


| Tempo de leitura: 3 min
Em 2012, a chamada ‘corrupção cotidiana’ foi objeto de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais e Instituto Vox Populi. Os números se tornaram pauta de matéria para a BBC Brasil, que pediu ajuda à psicóloga Lizete Verillo, diretora da ONG Amarribo Brasil — representante no país, da Transparência Internacional. 
 
Na análise sociológica, três pontos sobressaíram: para 35% da amostra, ‘as coisas podem ser um pouco erradas, mas não corruptas’. Então, ‘Não há tanto mal em sonegar impostos se o que se tem que pagar é caro demais’. O outro, representado por 84% da amostra, garante que ‘em qualquer situação existe sempre a chance da pessoa ser honesta’; Por último, ‘a corrupção do cotidiano’ reflete a corrupção política. ‘Se há impunidade no alto escalão, cria-se clima de replicação no cotidiano do cidadão comum, com consequências graves porque cria ciclo vicioso’, ela concluiu. 
 
Vou a 2009 para lançar mão de outra pesquisa sobre corrupção, realizada pelo Datafolha. Os números foram taxativos: 94% da amostra social achava errado oferecer propina e vender voto; mas 13% dos maiores de 16 anos pesquisados já tinham trocaram voto por emprego, dinheiro ou presente (‘dentadura, saco de cimento, licitação’, pela pesquisa estimulada). Ainda sobre votar, 12% estavam dispostos a mudar voto se houvesse pagamento, 33% concordavam que política sem corrupção não existe. Mais, e mais grave ainda: 5% (que correspondiam, na época, a 7,5 milhões de pessoas) já tinham oferecido propina a funcionário público; 4% (6 milhões) tinham pago por atendimento privilegiado em serviço público de saúde; 2% (3 milhões) compraram CNH; 1% (1,5 milhão de pessoas) compraram diploma falso; 31% dos entrevistados (quase 50 milhões de pessoas) colaram em provas ou concursos; 27% receberam troco a mais e não devolveram; 26% admitiram passar sinal vermelho; 14% assumiram parar carro em fila dupla. Dos entrevistados, 68% compravam produtos piratas; 30% compravam contrabando; 27% baixavam música sem pagar; 18% compravam de cambistas; 15% baixavam filmes sem pagar. 
 
Vamos, agora, colocar lado a lado os cenários de 2009, 2012 e 2015 (mensalão, empreiteiras metrô, petrolão, metástases sabe-se lá onde mais). Estamos nos tornando pós-graduados, na quintessência (de ‘quintessenciar, elevar à quinta-essência, ao mais alto grau de pureza, de sutileza’ — Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) da cultura bandida que nos iguala a todos por baixo, e deveria nos envergonhar, mas não, mais estimula que rubra o rosto. 
 
O círculo vicioso citado por Lizete Verillo institucionaliza essa cultura que mais e mais pessoas praticam e estimulam sorrindo alegres ‘porque não são corruptas’. 
 
Seria a educação, e apenas a educação, capaz de obstruir o movimento retilíneo uniforme definido pela Física como incapaz de parar na direção do abismo; mas não a educação servida por obrigação constitucional sem tesão da parte de aprendizes corrompidos, docentes desestimulados e, principalmente, de governos que não desejam formação de consciência crítica. 
 
Lizete afirma que ‘em geral, a escola é omissa, tem iniciativas isoladas quanto a ensinar jovens a ter ética, transparência e também a exercer cidadania.’ Concordo com ela mas lhe diria que é pior. 
 
Cidadania e compreensão ética nasciam em casa, de família de pais que não abriam mão de educar os filhos. Hoje se pare (do verbo parir) — quando o aborto não está ao alcance — a sequela chata do sexo gostosinho e se joga em creches e escolas, ou no lixo, bem longe. Tem quem pense que corrupção não seja um mal, que é prêmio...
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários